Boechat sai da vida para virar memória As graças e histórias deixadas por ele

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Boechat sai da vida para virar memória As graças e histórias deixadas por ele

Editor da Porteira do Mato relata memórias e testemunhos do jornalista Ricardo Boechat, morto em acidente aéreo                                                                               

Conheci Ricardo Boechat ainda em meus tempos no jornal O Globo. Havia conseguido minha transferência da sucursal de Brasília para o Rio de Janeiro, e aguardava tão somente igual transferência da Universidade de Brasília para a Escola de Comunicação da UFRJ, nessa época ainda localizada em um velho prédio histórico na Praça da República.

Isso era em 1972 e Boechat fazia parte da equipe que produzia as notas da Coluna de Ibrahim Sued. Sentava-se em uma mesa logo na entrada da redação do jornal, na Rua Irineu Marinho. Estar naquela redação me causava muito orgulho, e então dividia um pequenino apartamento em um prédio em frente à redação do jornal.

Desde adolescente, entre meus sonhos queria conhecer o Diário de Notícias, onde tinha amigos, alguns ainda de Brasília, e sua bela sede na Rua Riachuelo; assim como o Correio da Manhã, sediado na Rua Gomes Freire e cuja leitura era quase obrigatória para quem participou do movimento estudantil e das passeatas de 1968.

 

Notas econômicas e a plantação de maconha

Nossos contatos eram muito raros e protocolares – “boa tarde”, “olá” –, de modo que foi só um bom tempo depois que passamos a ter uma relação mais próxima. No início dos anos 2000 eu era assessor de imprensa do Conselho Regional de Economia, e costumava ter acesso a notas e notícias que não tinha a quem repassar.

Dados de pesquisas que os economistas produziam e que, como assessor, cabia a mim tentar algum tipo de divulgação, de preferência, em espaços jornalísticos considerados relevantes. Foi quando voltei a manter contatos frequentes com Boechat, especialmente por telefone e através do correio eletrônico, que surgia com força na comunicação entre as pessoas.

Lembro que um economista fez uma pesquisa apontando os piores e os melhores presidentes do Brasil, segundo parâmetros que tinham por base os resultados e desempenhos econômicos. Boechat adorou os dados e os publicou na coluna que assinava no jornal O Dia. Por essa época, os bombeiros de Santa Teresa descobriram uma plantação de maconha, na encosta do Morro do Chico (hoje ocupada por uma favela), e derrubaram a plantação. Essa informação causou boas risadas entre nós.

Ele ainda teve uma passagem importante no Jornal do Brasil, antes de seguir para o grupo Bandeirantes de Comunicação. E prossegui abastecendo suas colunas, com as informações que obtinha com os economistas. Um de nossos últimos contatos foi bem engraçado, ao estilo próprio dele, Boechat.

Eu estava na assessoria de imprensa do PT do Rio de Janeiro e um dirigente nacional do Partido, Tarso Genro, viria ao estado para encontros reservados. Passei a informação para ele, cuja resposta foi hilária e me surpreendeu pela franqueza: “esse é um neoliberal. Não vou dar uma linha”, disse, colocando ponto final na conversa.

A última vez que nos falamos eu estava em um táxi e ele ligou para meu celular. Queria saber se eu ainda prestava assessoria aos economistas. Ao que respondi: “nada Boechat. Eu entrei para a academia. Passei no concurso para professor da ECO/UFRJ e estou no Doutorado de Comunicação”. Ao que ele respondeu: “O que?? Você vai endoidecer. Vai largar o Jornalismo”. Rimos à beça e ainda trocamos algumas mensagens pela internet, comigo repassando informações que obtinha no meio acadêmico.

Grande figura humana. Boechat vai deixar saudades. Saiu da vida para entrar na memória do Jornalismo. Vai em paz, camarada.

 

Fotos: noticiasdatv.uol.com.br; metropoles.com

 

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