MAROMBA: Expulsos do paraíso

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MAROMBA: Expulsos do paraíso

MAROMBA: Expulsos do paraíso

Maurício Pássaro*

 

Conheci Maromba em 1988, vindo com um grupo de amigos da faculdade de jornalismo da UERJ. Peguei aquele tempo lendário que é sempre comentado em tom saudoso pelos mais antigos e suspirado pelos novos.

A serra não era asfaltada, e a viagem durava uma eternidade. Mas, quem teria pressa? O ritmo era outro. O carro dobrava à direita, na Rio-São Paulo, eu já me sentia aliviado. E quando surgia o chão de terra da serra, saltava do carro e olhava para trás: “Tchau asfalto…!”

Chegar à Maromba era atravessar o portal do espaço-tempo e aparecer em Woodstock, San Francisco, Los Angeles, o berço dos hippies. Eles eram presença obrigatória na localidade, suas barraquinhas pela praça, seu artesanato, sua cultura underground. Ainda peguei o bar-mercearia do sêo Tatão, seu mobiliário rústico – onde hoje é um restaurante de comida mexicana. E o Jamaica, espaço do rock e do reggae, onde hoje é um restaurante granfino. Tive a oportunidade de frequentar o bar do Carvão, agora o Simples Bar, palco de uma sequência extraordinária de violeiros, gaiteiros e cantores. O Carvão mantinha um violão na parede do bar: muito longe das praias, mas se podia sentir ali a doce maresia da contracultura…

A praça da Maromba era verdadeiramente um circo, um espetáculo. Barraquinhas hippies a cada metro, violão tocando em todo canto. O ápice da noite era a fogueira acesa no meio, um círculo de gente ao redor para ouvir Marco Poeta, entre outros malucos-beleza, recitar loucos poemas. O clima era cultural, uma cultura que não se achava mais em lugar nenhum. Não havia internet e smartphone: as pessoas punham os olhos sobre a arte, sobre o próximo, sobre a paisagem, num bonito compartilhamento de emoções.

Hoje, os celulares hipnotizam os olhos, cada um conectado a seu próprio umbigo, com o corpo na Maromba, mas a alma em outro lugar distante. A praça virou estacionamento de automóveis – reflexo natural do asfaltamento da serra, crônica desde sempre anunciada. A quem, afinal, interessou asfaltá-la? Façamos uma auditoria na consciência. Obras de urbanização sempre interessam muito aos governos e suas licitações suspeitas e milionárias.

Em 1995, na minha dissertação de Mestrado pela UFRRJ (Rural), pesquisei sobre o êxodo urbano, a migração de indivíduos urbanos das capitais para a cidade de Maricá, na Região dos Lagos (RJ). A cidade encaixava-se no espírito do small is beautiful, pequena, tranquila, pacífica, que a partir dos anos 2000 explodiu demograficamente com a nova política lá instaurada, de “crescimento sem desenvolvimento”, de crescimento a qualquer custo, urbanizada para a prefeitura aumentar sua garfada de IPTU. A violência aumentou, mendigos e pedintes passaram a fazer parte da paisagem, especulação imobiliária, congestionamento de veículos nas vias, enfim, todas as “benesses” de uma urbanização obsessiva e descontrolada.

Hoje, rezo a São Miguel, padroeiro da Maromba, para que o mesmo não aconteça aqui, nesta região da montanha que sempre foi chamada de paraíso.

 

 

*Jornalista, músico, morador da região, em depoimento enviado à Porteira do Mato.

3 Comentários

  1. Marcio moreira disse:

    Muito bom temos realmente cuidar preservar se não pra que atravessar a serra pra voltar triste

  2. Luana Fortes disse:

    Gostaria de ter conhecido essa Maromba aí. Quando a conheci, também achei maravilhosa, mas isso faz só dois anos e agora que moro aqui, fico encantada (e muito triste) por saber que esse lugar já foi esse paraíso que você descreveu. Você acha que poderia ser feito mais alguma coisa para que, pelo menos, ela volte a ter o charme que tinha?

  3. Lucília disse:

    Conheci a região em 1984… Abril de 1984. Me encantei e até hj me emociono com cada amanhecer na montanha sagrada

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