MAROMBA: Expulsos do paraíso

Estrada de Mauá está liberada
29/03/2018
Mostrar tudo

MAROMBA: Expulsos do paraíso

MAROMBA: Expulsos do paraíso

Maurício Pássaro*

 

Conheci Maromba em 1988, vindo com um grupo de amigos da faculdade de jornalismo da UERJ. Peguei aquele tempo lendário que é sempre comentado em tom saudoso pelos mais antigos e suspirado pelos novos.

A serra não era asfaltada, e a viagem durava uma eternidade. Mas, quem teria pressa? O ritmo era outro. O carro dobrava à direita, na Rio-São Paulo, eu já me sentia aliviado. E quando surgia o chão de terra da serra, saltava do carro e olhava para trás: “Tchau asfalto…!”

Chegar à Maromba era atravessar o portal do espaço-tempo e aparecer em Woodstock, San Francisco, Los Angeles, o berço dos hippies. Eles eram presença obrigatória na localidade, suas barraquinhas pela praça, seu artesanato, sua cultura underground. Ainda peguei o bar-mercearia do sêo Tatão, seu mobiliário rústico – onde hoje é um restaurante de comida mexicana. E o Jamaica, espaço do rock e do reggae, onde hoje é um restaurante granfino. Tive a oportunidade de frequentar o bar do Carvão, agora o Simples Bar, palco de uma sequência extraordinária de violeiros, gaiteiros e cantores. O Carvão mantinha um violão na parede do bar: muito longe das praias, mas se podia sentir ali a doce maresia da contracultura…

A praça da Maromba era verdadeiramente um circo, um espetáculo. Barraquinhas hippies a cada metro, violão tocando em todo canto. O ápice da noite era a fogueira acesa no meio, um círculo de gente ao redor para ouvir Marco Poeta, entre outros malucos-beleza, recitar loucos poemas. O clima era cultural, uma cultura que não se achava mais em lugar nenhum. Não havia internet e smartphone: as pessoas punham os olhos sobre a arte, sobre o próximo, sobre a paisagem, num bonito compartilhamento de emoções.

Hoje, os celulares hipnotizam os olhos, cada um conectado a seu próprio umbigo, com o corpo na Maromba, mas a alma em outro lugar distante. A praça virou estacionamento de automóveis – reflexo natural do asfaltamento da serra, crônica desde sempre anunciada. A quem, afinal, interessou asfaltá-la? Façamos uma auditoria na consciência. Obras de urbanização sempre interessam muito aos governos e suas licitações suspeitas e milionárias.

Em 1995, na minha dissertação de Mestrado pela UFRRJ (Rural), pesquisei sobre o êxodo urbano, a migração de indivíduos urbanos das capitais para a cidade de Maricá, na Região dos Lagos (RJ). A cidade encaixava-se no espírito do small is beautiful, pequena, tranquila, pacífica, que a partir dos anos 2000 explodiu demograficamente com a nova política lá instaurada, de “crescimento sem desenvolvimento”, de crescimento a qualquer custo, urbanizada para a prefeitura aumentar sua garfada de IPTU. A violência aumentou, mendigos e pedintes passaram a fazer parte da paisagem, especulação imobiliária, congestionamento de veículos nas vias, enfim, todas as “benesses” de uma urbanização obsessiva e descontrolada.

Hoje, rezo a São Miguel, padroeiro da Maromba, para que o mesmo não aconteça aqui, nesta região da montanha que sempre foi chamada de paraíso.

 

 

*Jornalista, músico, morador da região, em depoimento enviado à Porteira do Mato.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *