Para a inauguração, o artista quis criar uma performance caligráfica que – lembro-me bem – escandalizou alguns jovens críticos de arte milaneses que, maravilhados, exclamaram: «Mas isto é action painting!», quase como que para censurar Imaï por décadas de atraso na experiência americana dos anos 1950. Ele, que os ouviu, parou a sua acção apenas por alguns momentos, apenas o suficiente para responder: «Sim, mas já o fazemos há cinco mil anos!»».
Estas linhas fazem parte do texto de apresentação que Gino Di Maggio dedica a Toshimitsu Imaï (1928 – 2002), por ocasião da exposição que a Fondazione Mudima dedica nos últimos dias ao grande pintor japonês e que retoma duas outras exposições que foram realizadas pela fundação em 1993 (após participação na Bienal de Veneza) e em 2001.
Um texto importante não só porque esclarece como Imaï, durante muito tempo um expoente internacional do informal, foi capaz de unir a profunda tradição japonesa às correntes internacionais modernas, mas também pelas palavras esclarecedoras e esclarecidas de Gino Di Maggio, promotor e organizador de exposições e eventos culturais, colecionador, ensaísta, editor de periódicos de arte desde os anos setenta e fundador, em 1989, da Fundação Mudima em Milão, a primeira de arte contemporânea em Itália.
Di Maggio nasceu em 1940 em Novara Sicilia, na província de Messina (interessante notar que o outro curador, Nino Sottile Zumbo, também é de Messina, de Barcelona Pozzo di Gotto, enquanto o terceiro, o historiador de arte Dominique Stella, já tinha curado a exposição de 2001) e foi fundamental para o percurso cultural de Milão nas artes figurativas; instalou-se agora em Oliveri, também na província de Messina, onde fundou uma associação que ajuda jovens artistas sicilianos. Recorda como Imaï, na segunda exposição milanesa de 2001, foi o primeiro importante artista japonês a criar obras sobre Hiroshima e Nagasaki e também sobre o massacre de Nanjing, cometido pelos japoneses contra os chineses, relativamente ao qual o artista «assumiu uma responsabilidade moral». Na verdade «Massacre de Nankin 1937» e «Nankin» são o centro vital (uso este adjectivo precisamente em contraste com a palavra massacre) da exposição que apresenta também quatro obras dedicadas ao lançamento das bombas atómicas que, entre outras coisas, foram a causa dos problemas de saúde que Imaï sofreu ao longo da sua vida.
Grandes pinturas materiais, de cores escuras e intensas, com inserções de materiais diversos, do ponto de vista conceptual semelhante ao «Guernica» de Picasso, são um manifesto da arte informal japonesa (e gotejante). «Dá-nos – diz Sottile Zumbo – um soco no estômago, mas desperta as nossas consciências adormecidas. As pinturas são poemas para a paz universal.” E são também uma espécie de testamento moral e artístico, porque Imaï, já doente, morreu no ano seguinte. Também estão expostas as caligrafias criadas por Imaï em 2001, “contadas” também pelas esplêndidas fotografias de Fabrizio Garghetti, que testemunham um gesto que tem as suas raízes na tradição Zen e nos ensinamentos do Tao, muito antes da action painting até se apresentar na escola Rinpa, como Sottile Zumbo ainda lembra, a técnica “tarashikomi”, que significa gotejamento, precursora do gotejamento americano.