Na pintura contemporânea Anselm Kiefer (81 anos) é o alemão que explica: «Os artistas são como xamãs, que se sentam numa árvore enquanto meditam, permanecendo suspensos entre o céu e a terra». Esta atmosfera de suspensão faz-se sentir imediatamente ao entrar na Sala das Cariátides do Palácio Real de Milão, onde a exposição “Os Alquimistas” está patente até 27 de Setembro. Quarenta e duas grandes telas (oito das quais na adjacente Sala del Lucernario) contam a história das mulheres, ora perseguidas, ora negligenciadas ou apagadas, que ao longo dos séculos trabalharam na transformação da matéria, em busca da mítica pedra filosofal capaz de transformar qualquer metal em ouro, ou, mais simplesmente, foram pioneiras do que um dia se tornaria a química, e pretendiam transformar vários elementos em medicamentos (na esteira de Paracelso) ou em produtos que fossem o precursores da cosmética moderna.
Ter escolhido mulheres, ao invés dos mais famosos alquimistas masculinos, para esta exposição promovida pela Municipalidade-Cultura, produzida pelo Palazzo Reale e Marsilio Arte e com curadoria de Gabriella Belli, torna as obras de Kiefer mais potentes pela multiplicidade de significados que o feminino – com os conceitos de fertilidade e maternidade – agrega à transformação e ao renascimento. Aquelas figuras que emergem com dificuldade de uma pintura que mistura muitos componentes, que ao mesmo tempo são expulsas e retidas, desajeitadas em movimentos encolhidas (pelo tempo e pela perplexidade), decididas e indecisas em voltar ao mundo, alheias a um protagonismo outro que não o da investigação, são intérpretes metafóricas de uma sociedade que, embora já não anule as mulheres, ainda as mantém num patamar de disparidade disfarçada de igualdade.
Gabriele Guercio escreve bem no belo catálogo publicado pela Marsilio Arte: «Os retratos dos alquimistas (…), quebrando-se e recompondo-se, representam uma viagem no tempo, mas cada pintura ocupa o seu espaço e preserva um unicum de uma efígie mesmo que relute em se acalmar». Aqui, esta frase leva-nos directamente ao ponto: quando saímos da exposição, permanece algures dentro de nós a ideia de que, regressando outro dia, encontraremos aqueles retratos diferentes, como se houvesse uma alquimia irrepreensivelmente em curso (a de Kiefer e a nossa, arrastados como somos para a teia da transformação) da qual é impossível escapar. Um conceito bem expresso por Natacha Fabbri, novamente no catálogo: «A instalação fragmenta e multiplica as mulheres destas pinturas num caleidoscópio de imagens que se recompõem de formas sempre mutáveis, que geram maravilhamento através do jogo de reflexão criado pelos espelhos da Sala das Cariátides».
Acredito que seja precisamente esta a virtude expressiva e filosófica (ou filosófica?) da exposição, acentuada pela co-presença das Cariátides, as estátuas nas paredes que nunca foram restauradas, se não em parte, após o incêndio provocado pelo bombardeamento de 1943, símbolo também de uma transformação, desta vez negativa, a da guerra, uma lição óbvia mas nunca aprendida. Se foram precisamente as características da sala que convenceram Picasso em 1953 a expor ali excepcionalmente o seu “Guernica” durante alguns dias, pode-se supor que Kiefer, tão profundamente diferente no estilo do artista espanhol e absolutamente semelhante na tensão da pesquisa contínua, viveu o convite do Palazzo Reale como um desafio de forma e conteúdo, sobretudo de transformação (aqui está a palavra “mágica”), com o seu antecessor. Tenhamos em conta, porque é fundamental “entrar” no mundo do pintor alemão (também influenciado pela Cabala Judaica e pelas culturas orientais), que estes Alquimistas representam plenamente o conceito fundamental da sua forma de operar. Kiefer transforma mais do que tintas porque não se limita a pintar em si, mas também usa chumbo, ouro, cinza, areia, palha, flores secas e pétalas (e muito mais). Todos os elementos sujeitos a manipulação (por vezes arriscada porque podem destruir a pintura durante a obra) com ácidos e eletrólise, fenómeno eletroquímico utilizado na indústria. Nesta ocasião, o chumbo ganha maior importância por ser o material preferido da alquimia para a obtenção do ouro, operação que nunca teve sucesso, exceto por uma espécie de pátina que tornava o material aparentemente semelhante ao metal mais nobre. O filme “Anselmo”, de Wim Wenders, apresentado no Festival de Cinema de Cannes de 2023, centra-se nestes aspectos.
Sentidos profundos investigados e confirmados pelo psicanalista Massimo Recalcati que, no livro “A semente sagrada. A poética de Amselm Kiefer”, publicado pela Marsilio Arte por ocasião da exposição, vai em busca do mistério criativo “que permite transformar a ferida do trauma em poesia, as ruínas em um novo começo”.
Considerados (ainda hoje) heroínas ou bruxas, anjos ou demônios, protocientistas ou charlatões, os alquimistas abrem caminho pela consistência material das telas e são nomes famosos e desconhecidos e talvez apenas lendários. Há Caterina Sforza (1463 – 1509, uma verdadeira homenagem a Milão), que deixou um manuscrito com receitas, cosméticos e fórmulas alquímicas. Ou a outra italiana Isabella Cortese, que viveu no Renascimento, ou a famosa Cristina da Suécia (falecida em Roma em 1655) ou Margaret Cavendish, a inglesa do século XVII que trabalhou entre a filosofia, a poesia e a ciência, ou Anne Marie Ziegler, a primeira alquimista da corte na Alemanha e depois condenada à fogueira em 1575.
Mas são todas histórias importantes e extraordinárias de 38 mulheres extraordinárias em 42 pinturas extraordinárias.
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