Quando, há 18 anos, Santino Bonfiglio esfaqueou outro ex. E essa pena de 10 anos foi reduzida para três

Um epílogo trágico que não chegou de repente, porque investigando o passado de Santino Bonfiglio, o caminhoneiro que nos últimos dias matou seu ex-companheiro com quarenta facadas, após meses de espancamentos e ameaças, há algo que – hoje – faz com que o feminicídio de Daniela Zinnanti pareça ainda mais inaceitável: seu passado violento, feito de espancamentos, ameaças e ataques pesados ​​contra mulheres.

Episódios que já haviam levado Bonfiglio aos juízes no passado, mas que não impediram que a espiral de violência continuasse até o seu epílogo mais trágico. Um dos precedentes mais graves remonta à noite de 5 de Setembro de 2008, na aldeia de San Martino di Spadafora, na zona de Messina. Bonfiglio, caminhoneiro natural de Torregrotta, agrediu seu companheiro no final de mais uma disputa doméstica. Primeiro ele tentou estrangulá-la com as próprias mãos, depois foi até a cozinha, pegou uma faca com lâmina de dezesseis centímetros de comprimento e a esfaqueou no peito. A mulher foi transportada com urgência para o hospital de Milazzo, com ferimentos profundos e numerosos hematomas: prognóstico de quarenta dias.

O que impediu que aquela noite se transformasse em assassinato foi a coragem de um policial de trânsito de Spadafora, vizinho do casal. Ele e a esposa perceberam a cena pela janela: a mulher estava descalça, no chão, enquanto Bonfiglio – de cueca – a puxava e cobria sua boca para evitar que ela gritasse. O policial saiu imediatamente à rua para intervir; sua esposa ligou para 113 e 118. Mas antes de fugir o caminhoneiro ainda conseguiu esfaqueá-lo. Assim começou uma caçada humana que durou algumas horas. Bonfiglio partiu em seu Fiat Panda e, durante a fuga, telefonou para sua ex-mulher que mora em Milazzo. Ele disse a ela que queria ver sua filha imediatamente e a ameaçou. A mulher, percebendo a gravidade da situação, decidiu não ter pressa: contou-lhe que estava em Messina, na aldeia de Catarratti, como hóspede da irmã. Então ele chamou a polícia. A polícia chegou à área indicada e interceptou o Panda pouco antes das duas da manhã. Bonfiglio foi preso sob a acusação de tentativa de homicídio.

Em primeira instância a pena era de dez anos de prisão. Mas na segunda instância os juízes mudaram a classificação jurídica dos fatos: não mais tentativa de homicídio, mas lesão corporal. Uma decisão que reduziu drasticamente a pena: três anos. No entanto, a violência não foi um incidente isolado. Já alguns meses antes, em março do mesmo ano, Bonfiglio havia atacado a mesma mulher por motivos triviais, atingindo-a com socos, chutes e tapas e causando-lhe a fratura de duas costelas.

Uma sequência de ataques que, relida hoje, à luz do assassinato de Daniela Zinnanti, ganha um peso diferente. O feminicídio não foi – nunca poderá ser – a súbita explosão de raiva inesperada, mas o último capítulo de uma longa história de violência doméstica que já dava sinais claros há anos. Uma violência que, apesar das denúncias e dos julgamentos, não foi interrompida a tempo.

Felipe Costa