«A concepção de poder legítimo encontra uma das suas expressões mais elevadas na democracia autêntica», «longe de ser um mero procedimento, a democracia reconhece a dignidade de cada pessoa». «No entanto, só permanece saudável quando está enraizado na lei moral e numa verdadeira visão da pessoa humana. Sem este fundamento, corre o risco de se transformar numa tirania maioritária ou numa máscara para a dominação das elites económicas e tecnológicas.” O Papa afirma-o numa mensagem que enviou aos participantes no Plenário da Pontifícia Academia das Ciências Sociais sobre o uso do poder a nível global.
«Agradeço à sua Presidente, Irmã Helen Alford, por ter escolhido o tema: ‘Os usos do poder: legitimidade, democracia e reescrita da ordem internacional’ – começa o Papa Leão na mensagem -. Este é um tema particularmente atual, que centra a nossa reflexão no exercício do poder, elemento crucial para a construção da paz dentro e entre as nações neste momento de profundas mudanças globais”.
O poder como serviço ao bem comum
«A doutrina social católica – continua – considera o poder não como um fim em si mesmo, mas como um meio orientado para o bem comum. Isto implica que a legitimidade da autoridade não depende da acumulação de força económica ou tecnológica, mas da sabedoria e da virtude com que é exercida”, acrescenta, citando o Catecismo. «A sabedoria – escreve novamente Leone – permite-nos discernir e perseguir a verdade e o bem, em vez dos bens aparentes e da vanglória, nas circunstâncias da vida quotidiana.
As virtudes fundamentais contra o abuso de poder
«Em particular – continua -, sabemos que a justiça e a coragem são indispensáveis para tomar decisões ponderadas e colocá-las em prática. A temperança também se revela essencial para o uso legítimo da autoridade, pois a verdadeira temperança restringe o auto-engrandecimento excessivo e serve de baluarte contra o abuso de poder. Esta concepção de poder legítimo encontra uma das suas mais altas expressões na democracia autêntica”.
Ordem internacional e novos desafios globais
«Os mesmos princípios que orientam o exercício da autoridade dentro das nações – continua o Pontífice – devem igualmente informar a ordem internacional, uma verdade particularmente importante a recordar num momento em que as rivalidades estratégicas e as alianças mutáveis estão a remodelar as relações globais. Devemos lembrar que uma ordem internacional justa e estável não pode surgir do mero equilíbrio de poder ou de uma lógica puramente tecnocrática. A concentração do poder tecnológico, económico e militar nas mãos de poucos ameaça tanto a participação democrática dos povos como a harmonia internacional.”
A visão final: paz e esperança além do poder terreno
“Em última análise, quando os poderes terrenos ameaçam a tranquilitas ordinis, a clássica definição agostiniana de paz – conclui – devemos haurir esperança no Reino de Deus, que, embora não seja deste mundo, ilumina os assuntos deste mundo e revela o seu significado escatológico”.