Festival de Cinema de Taormina, Plácido relança o cinema civil: «Hoje falta a coragem dos grandes mestres». E ele fala sobre seu Livatino

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O cinema civil italiano perdeu parte da sua força e da sua capacidade de impactar a realidade. Michele Placido está convencido disso e, desde o palco do Festival de Cinema de Taormina, onde receberá o Lifetime Achievement Award, fez um balanço do estado da cultura e da arte no país, focando também no seu novo projeto televisivo dedicado à jurada Rosario Livatino.

Segundo o diretor e ator, hoje o cinema italiano sofre uma espécie de autocensura que leva muitos jovens autores a privilegiar histórias mais tranquilizadoras. «Falta-nos coragem para enfrentar certas questões», observa Plácido, recordando a época de grandes mestres como Francesco Rosi, Elio Petri e Damiano Damiani, protagonistas de um cinema capaz de narrar o poder, o crime e as contradições da sociedade.

«Faltam os grandes diretores do compromisso civil»

Para Plácido, essa tradição parece hoje enfraquecida. «Sentimos falta do Francesco Rosi, do Elio Petri, do Damiano Damiani», afirma, sustentando que uma geração de autores capazes de criar obras como Mãos na cidade ainda não surgiu. Uma referência que o realizador também liga a figuras internacionais como Oliver Stone, que tem repetidamente indicado Rosi como sua professora.

É precisamente nesta tradição de compromisso civil que se enquadra a minissérie Rai dedicada a Livatino, a primeira experiência televisiva de Plácido como realizador.

A série sobre Livatino: «Não estou falando de um santo, mas de um magistrado inovador»

A produção, que será transmitida pela Rai 1 com o título “O juiz e seus assassinos”, verá Giuseppe De Domenico no papel do magistrado siciliano assassinado pela máfia.

Plácido explica que escolheu uma abordagem diferente daquela de uma simples história hagiográfica. Através da análise de documentos judiciais até então pouco conhecidos, o diretor afirma ter descoberto como Livatino aplicava estratégias investigativas muito avançadas para a época, baseadas na apreensão de bens e no controle de fluxos financeiros. Um método que, segundo Plácido, antecipou a abordagem que mais tarde ficaria famosa por Giovanni Falcone e Paolo Borsellino.

«Quando se toca no dinheiro, torna-se um custo para a máfia», sublinha o realizador, destacando um dos aspectos centrais da série.

O encontro com o Papa Francisco e a escolha dos atores sicilianos

Ao narrar a génese do projeto, Plácido recorda também um longo encontro com o Papa Francisco, que se interessou particularmente pela realização da obra durante o processo de beatificação de Livatino.

O Pontífice, explica o diretor, queria uma produção capaz de falar à consciência das pessoas e de restaurar a dimensão humana do magistrado, profundamente inspirada no Evangelho e na sua própria fé.

Para reforçar a autenticidade da história, Plácido também escolheu um elenco composto exclusivamente por jovens atores sicilianos. Uma decisão que considera uma homenagem à lição do Neorrealismo e à tradição de um cinema enraizado nos lugares e nas pessoas que retrata.

Felipe Costa