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No dia 15 de agosto de cada ano, o povo de Messina reúne-se para participar numa das suas tradições mais antigas e sinceras. A procissão da Vara, carro alegórico dedicado à adoração da Virgem da Assunção, representa um momento de agregação secular que atravessa a história de Messina.
As origens e composição da carruagem
O nascimento da Vara remonta ao século XVI, quando foi construída como uma carruagem triunfal para celebrar a chegada de Carlos V à cidade. Suas origens, porém, são incertas: não se pode descartar que a máquina votiva já existisse antes. O certo é que, até hoje, o seu significado se transformou profundamente, tornando-se um verdadeiro testemunho de fé do povo de Messina. O termo “vara” equivale a “caixão” e refere-se ao caixão onde jazia o corpo da Dormitio Virginis (a Madona Adormecida). Segundo a tradição, a passagem da vida terrena para a vida celestial da Virgem Maria teria ocorrido de forma extraordinária, adormecendo num doce sono e depois, ao acordar, fazendo a sua entrada triunfal no paraíso. O caixão, guardado no Mosteiro de Montevergine, é colocado na pedra Vara, plataforma na sua base. A partir daqui, numa viagem do imanente ao transcendente, sucedem-se todos os elementos que constituem o carro: os apóstolos que rodeiam a Madonna, os sete céus representados segundo a concepção ptolomaica, os símbolos do Sol e da Lua, o globo celeste e as diversas ordens de anjos. No topo, a estátua de Jesus Cristo segurando a Virgem da Assunção, conduzindo-a ao paraíso.
A evolução da Vara
Todos os personagens já estiveram vivos, desde as crianças que se faziam passar pelos anjos até a Madona interpretada por uma menina virgem, que em determinado momento da procissão falou em dialeto com Cristo. Ao longo dos anos, porém, ocorreram dois acidentes em que crianças e jovens caíram da carroça, o primeiro em 1681 e o segundo em 1738. Em ambos os casos, uma parte da carroça quebrou e causou a queda de quem estava nela. Estes acontecimentos, embora as pessoas envolvidas tenham permanecido milagrosamente ilesas, geraram numerosos protestos de intelectuais e da imprensa, e em 1866 decidiu-se substituir os personagens vivos por representações em madeira e papel machê. Esta foi uma das muitas transformações que a Vara sofreu ao longo dos anos, até se tornar o que é hoje. Originalmente a carroça era equipada com rodas e era transportada por 150 “bbastasis”, homens especialmente designados, enquanto hoje são mais de mil cidadãos de Messina que a arrastam pelo asfalto molhado com o auxílio de patins de aço. O percurso também era diferente: antigamente era mais curto e envolvia mais de uma curva, enquanto hoje o percurso começa na Piazza Castronovo e chega à Piazza Duomo após o momento delicado e emocionante da curva entre a Via I Settembre e a Via Garibaldi. Aqui é necessária a máxima precisão por parte dos atiradores, timoneiros e remadores, que devem posicionar o vagão no ponto exato que lhe permita girar sobre si mesmo e entrar corretamente na estrada. Durante a procissão, que reúne os cidadãos numa viagem simbólica na mesma direção, ouve-se pelas ruas o famoso grito coral: “Viva Maria!”. Um grito que é mais do que um simples coro, pois representa o emblema de um povo que todos os anos se reúne no mesmo local para partilhar uma tradição ímpar.
O Centenário do Renascimento
Este ano a Vara prepara-se para uma edição particularmente especial: o centenário do seu renascimento. Há um século, a cidade recuperou um momento de forte identidade colectiva, após a pausa forçada causada pela destruição do terramoto de 1908. Desde então, Messina restaurou a tradição Vara, embora ainda tenha de enfrentar anos difíceis, entre a guerra e a recente pandemia. Apesar das adversidades, a cidade continua profundamente ligada a este evento, considerando-o uma oportunidade de partilhar não só o culto e a devoção, mas também a força emocional de um evento cheio de paixão e esforço.