A natureza humana do filho de Deus, em Caraffa di Catanzaro o livro do Padre Antonio Spadaro que inverte a perspectiva do olhar sobre Cristo

Há uma parte do corpo que a tradição iconográfica cristã quase sempre negligenciou. Não o rosto, no qual a luz da eternidade foi projetada durante séculos. Não as mãos, cheias de gestos taumatúrgicos e simbólicos, mas os pés. Aqueles pés andando; que afundam na areia; que deslizam pela água; que, empoeirados, fazem mover a Palavra; que estão perfurados. É a partir deste detalhe, tanto anatômico quanto teológico, que começa “A Passo d’uomo. Uma história de Jesus com os pés no chão” (Marsilio Editori), o novo volume do Padre Antonio Spadaro, ex-diretor da Civiltà Cattolica e uma das vozes mais autorizadas do catolicismo contemporâneo, apresentado ontem à tarde durante um dos encontros da revista “Consonanze”, promovida por Entopan e Feltrinelli em Caraffa di Catanzaro.

A perspectiva de baixo

A escolha de ler os Evangelhos através das lentes do movimento não é um artifício retórico. É uma escolha teológica precisa. Spadaro inverte a perspectiva: em vez de olhar para o rosto de Jesus e para a sua auréola, e portanto para a sua dimensão divina, o autor propõe partir dos pés e ir subindo. É uma mudança de postura que tem consequências profundas na leitura do mistério da Encarnação. Verdadeiro Deus e verdadeiro homem, como sublinha o Credo: mas a reflexão cristã historicamente se deteve muito no primeiro adjetivo e muito menos no segundo. Lembrar que Jesus tem pés que doem, que se sujam, que tropeçam, significa lembrar que a transcendência não abole a gravidade – no sentido físico do termo – mas passa por ela. E significa não perder de vista a natureza humana do filho de Deus.

Patti Smith e o Políptico Grünewald

Por um momento da noite parecia que estávamos numa das famosas histórias de Gianni Minà, quando o jornalista relembrou momentos e empresas aparentemente incríveis e inconciliáveis. Assim, Spadaro é o ponto de conjunção – por acaso, ele fez questão de especificar, e não por desejo deliberado – de mundos que no imaginário coletivo estão a anos-luz de distância. Do Papa Francisco a Martin Scorsese, de Michelangelo Pistoletto a Patti Smith. E é ao artista americano que é confiado o prefácio do volume de Antonio Spadaro. Não uma operação de marketing editorial, mas sim uma escolha coerente com a estrutura do livro, nascida durante um longo café da manhã nova-iorquino. Smith centra a sua reflexão a partir do “Retábulo de Isenheim” de Matthias Grünewald, a obra-prima pictórica do início do século XVI em que se representa uma crucificação que nada permite a idealização, que mostra um Cristo com a carne dilacerada e os pés torcidos numa careta de dor, «quase um “Grito” de Munch mas com os pés de Cristo», explica Spadaro. São pés que nada têm da perfeição escultórica greco-romana, nem da serenidade hierática dos ícones orientais. São pés humanos, feridos, reais. E é precisamente aí, naquela imagem crua, que encontramos a proximidade mais autêntica de Deus à experiência humana.

O movimento como categoria teológica

«É um livro de ação, não de reflexão espiritual», diz Spadaro. No centro do ensaio está o movimento, entendido como categoria teológica e não apenas biográfica. Spadaro devolve-o ao leitor através de lentes deliberadamente cinematográficas: as ações de Jesus no Evangelho são descritas sem comentários, como planos sequenciais, deixando que os gestos falem. No Evangelho Jesus nunca fica quieto. Ele caminha, atravessa fronteiras, desloca-se de uma aldeia para outra, entra nas casas, entra nos barcos, caminha falando e sobretudo fala enquanto caminha. Este movimento perpétuo não é um detalhe narrativo de fundo: é a própria forma da sua revelação. Movimento implica relacionamento, transformação, risco. Quem anda pode cair, tropeçar, pode se machucar. E é exatamente esta vulnerabilidade – tão humana, tão distante da imagem do Cristo triunfante – que constitui o cerne teológico do livro. E é também a chave para compreender o que torna este livro capaz de falar a quem não acredita.

Felipe Costa