A reviravolta de Paris relativamente à demissão de Francesca Albanese. O relator da ONU: “Esperava um pedido de desculpas”

A França dá meia-volta em relação a Francesca Albanese: o pedido de demissão invocado pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros, Jean-Noel Barrot, resulta num simples apelo à “sobriedade” e à “moderação” por parte dos responsáveis ​​da ONU. Mesmo que a posição de Paris não mude. Na verdade, através de um porta-voz do Quai d’Orsay, ele reitera que o relator especial para os Territórios Palestinianos deveria ter a “dignidade” de demitir-se.

“Noto que a diplomacia francesa mudou de ideias”, comentou a italiana, especificando, no entanto, que esperava um “pedido de desculpas pelos insultos duros e inaceitáveis” recebidos. Tudo começou no início de fevereiro, após um discurso de Albanese num fórum de vídeo organizado pela Al-Jazeera no Qatar, no qual participaram, entre outros, o líder do Hamas no estrangeiro, Khaled Meshaal, e o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araghchi. Numa passagem do seu discurso sobre as relações do Ocidente com Israel, Albanese falou de um “inimigo comum da humanidade”.

Palavras que a interessada esclareceu 48 horas depois em X: «O inimigo comum é o sistema que permitiu o genocídio na Palestina», afirmou. Mas a sentença já tinha desencadeado a reação de um grupo de parlamentares franceses da área macroniana que pediram para tomar iniciativas contra o responsável italiano, acusado de flertar com o Hamas. Pedido aceite poucos dias depois pelo ministro (e camarada de partido), Barrot, que no dia 11 de Fevereiro condenou “sem reservas” as palavras da relatora da ONU, anunciando na Câmara perante os deputados que no dia 23 de Fevereiro iria pedir a sua demissão no Conselho dos Direitos Humanos da ONU em Genebra. Mas não foi esse o caso. Segundo o que se apurou, a embaixadora francesa na ONU em Genebra, Céline Jurgensen, não pediu explicitamente a demissão de Albanese, contentando-se em denunciar “declarações repetidas e extremamente problemáticas”.

Daí o convite a todos os relatores especiais das Nações Unidas para que demonstrem “sobriedade, moderação e discrição, impostas pelo seu mandato”. O porta-voz do Itamaraty, Pascal Confavreux, declarou ao Politico que Barrot continua a ser de opinião que as “repetidas provocações” de Albanese deveriam levá-la a deixar o cargo espontaneamente. Falando no parlamento em 18 de Fevereiro, Barrot – cuja iniciativa recebeu o apoio de outros países europeus – condenou mais uma vez a “longa lista de provocações” de Albanese: não apenas as palavras sobre um alegado “inimigo da humanidade”, mas também “a justificação de 7 de Outubro”.

A nível institucional, a margem de manobra da diplomacia francesa permaneceu muito limitada: os estados membros não têm mecanismos para forçar um relator especial da ONU a sair antes do final do seu mandato (o mandato de Albanese expirará em 2028), a menos que uma resolução específica seja adotada pelo Conselho de Direitos Humanos. Hipótese considerada improvável mesmo em Paris. Por sua vez, a interessada fez saber que não tem intenção de sair.

Felipe Costa