O conflito entre o Paquistão e o Afeganistão reacende-se com uma nova escalada perigosa. O governo de Cabul acusa as forças armadas paquistanesas de terem causado a morte de pelo menos 13 civis em ataques aéreos noturnos às províncias orientais do Afeganistão: “Onze crianças, uma mulher e um idoso foram mortos”, declara o porta-voz, segundo o qual “outras 14 pessoas ficaram feridas”.
Do outro lado da fronteira, as autoridades de Islamabad confirmam que as suas tropas realizaram incursões na fronteira, mas afirmam ter matado “26 milicianos” do grupo paquistanês Tehreek-e-Taliban, os talibãs paquistaneses, e ter conduzido o que definem como “ataques precisos e calibrados” a “esconderijos e refúgios seguros”.
Uma guerra, duas narrativas opostas. No entanto, um jornalista da France Presse no local disse ter visto “uma casa completamente destruída na província de Khost, no sudeste, onde os residentes cavavam sepulturas para enterrar as vítimas de um ataque noturno”. E é novamente a agência de imprensa francesa que cita um residente local segundo quem entre as vítimas estaria “uma família pobre, que nada fez” e que “não tinha ligação com os milicianos”.
Apesar das tentativas de mediação por parte do Qatar, da Turquia e da China, a violência já dura meses. Islamabad acusa os talibãs afegãos – no poder em Cabul desde a retirada das tropas norte-americanas em 2021 e acusados de gravíssimas violações dos direitos humanos – de não controlarem o que definem como “grupos terroristas anti-Paquistão” e que suspeita estarem por detrás de vários ataques no país. O governo de Cabul, porém, rejeita as acusações. Islamabad descreve os ataques das últimas horas como uma reação aos “recentes episódios de terrorismo no Paquistão”.
E no dia anterior tinha denunciado o assassinato de seis paramilitares num ataque dos talibãs paquistaneses a um posto de controlo perto de Peshawar. Estima-se que centenas de pessoas tenham morrido nestes meses de guerra entre o Paquistão e o Afeganistão. Incluindo muitos, demasiados civis. Pelo menos 269 deles num único dia, 16 de março – relata a ONU – num ataque a um centro médico em Cabul pelo qual as forças paquistanesas são acusadas.