Aquele nosso magnífico mar «De todas as cores». Na Scaletta Zanclea o show do calabresa Scenari Visibili

Há as cores do Estreito, aquela particular luz mutável que só os habitantes de “Scylla e Charybdis” conhecem bem, há, na referência cromática, algo que funciona como um código de arquivo das nossas memórias e, como se não bastasse, há o sabor, salgado e azedo, das atmosferas que ainda nos são devolvidas pela obra-prima intemporal de Stefano D’Arrigo, “Horcynus Orca”. Uma epopeia contemporânea que ainda hoje é vanguardista (prova disso são as suas traduções estrangeiras ainda muito recentes), e que ainda no ano passado celebrou 50 anos do seu nascimento e que, também por isso, tem funcionado como um arrombador na investigação artística da companhia de teatro Scenari Visibili. De Lamezia Terme, onde tem sede num espaço próprio independente, o TIP Teatro Biblioteca, o grupo de teatro propõe – desde que estreou no Spazio Teatro de Reggio – a nova produção «Di tutti i colori».

Já houve muitos comentários críticos entusiásticos ao espetáculo que, tendo chegado a Trento, agora chega diretamente a Messina. O encontro é para amanhã, às 18h30, no Nuovo Teatro Scaletta de Scaletta Zanclea, convidados da exposição “Abitare il tempo” com curadoria de Maurizio Puglisi e seu Nutrimenti Terrestri.

Há também outra coisa, foi dito, porque a figura e as medidas que o Scenari Visibili tenta adoptar são sobretudo as de uma tensão constante com os acontecimentos actuais mais prementes. É assim que Horcynus tem dado origem a sugestões que misturam a interculturalidade e algumas reflexões sobre a atualidade, sobre as solidões, sobre o “esquecimento coletivo” para o qual é cada vez mais difícil encontrar remédio: por exemplo, a outra fonte de inspiração foi o livro «Japão em cores» de Laura Imai Messina (Einaudi, 2023) e, novamente, fundamentais na pesquisa foram os escritos e pensamentos do falecido Osvaldo Pieroni, sociólogo Macerata que deixou um grande legado na Universidade da Calábria (o seu «Tra Scilla e Cariddi», Rubbettino, 2000, merece uma releitura contemporânea). Em palco, o ator Dario Natale a quem devemos grande parte da escrita, empenha-se na interpretação aguda e comovente de vários personagens, entre os quais se destaca Saro, “u pellesquadra” (para voltar a D’Arrigo) com o seu drama de memória muito pessoal. O apoio dramatúrgico é de Subhaga Gaetano Failla e Domenico Benedetto D’Agostino e o espetáculo também é enriquecido pelas paisagens sonoras compostas por Alessandro Rizzo.

Felipe Costa