Como você… “apaga” Michelangelo. Assinado: Isgrò

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Se os autores são (canta cover…) Michelangelo Buonarroti e Emilio Isgrò, o que podemos dizer destes «Madrigals»? Escrito a quatro mãos ou apagado a quatro mãos? Uma questão legítima visto que as rasuras de Isgrò também têm um sentido de escrita e que, como Michelangelo fez com o mármore, funcionam “para remover” tendo como objetivo a criação. «Apagar não significa não dizer, mas dizer de outra forma», sempre disse o artista barcelonês. Um conceito que se reafirma nesta esplêndida publicação publicada pela Coup d’idée de Enrica Dorna (Turim), um autêntico livro de arte impresso com cuidado meticuloso e artesanal.

Um exemplo? Isgrò acrescenta às rasuras, desta vez cinzentas, as suas queridas formigas e também muitos outros insetos (joaninhas, besouros, libélulas, moscas, lagartas e borboletas coloridas) que, ao mover o livro, parecem brilhantes como se estivessem em relevo, mas não o são. Porém, as duas formigas que acompanham a cabeça do famoso David de Michelangelo na capa “aparecem” ao toque.

Então, mais uma vez, Isgrò acerta o alvo. Basta citar a primeira e a última página do livro para esclarecer como, de alguma forma, as intenções do grande Buonarroti, aqui autor de rimas dolorosas, e os refinamentos artístico-literários da “borracha”, que sempre opera na fronteira com a poesia, acabam coincidindo. «Oilmè, oilmè… amarrado e» é o que fica claro do primeiro madrigal, enquanto, desta vez rodeado de formigas vermelhas, «para durar pouco tempo, sinto nada menos que a dor… e vejo… graça» são as palavras do último poema.
Na jornada de Michelangelo (que, além de expressar a tensão criativa rumo ao auge da arte, também sofreu dores amorosas pelo jovem Tommaso de’ Cavalieri), Isgrò se engaja com as necessidades contemporâneas de redescobrir as condições para escapar do lamento (oilmè) e chegar diligentemente (as formigas) até ver a luz novamente (veggio grazie), como o homem, ajudado pela natureza (os diversos insetos), é capaz de fazer.

Neste caminho rumo à visão possível da graça, não é certamente por acaso que uma das palavras que mais frequentemente sobrevive aos rasuras é “mulher”, emblema de uma renovação social e filosófica face à decadente sociedade chauvinista.
«Desenha em mim… como eu faço na pedra» fica noutra página, legitimando como e porquê Isgrò desenha (não esqueçamos que as formas e o ritmo das rasuras são desenho) em Michelangelo.

Felipe Costa