O líder saudita Muhammad ben Salman (Mbs) encontra-se no centro do vórtice que se abriu após o assassinato de Ali Khamenei, enquanto a nova ronda de guerra se estende do Mediterrâneo ao Golfo, mesmo no quintal de Riade. Com as capitais árabes aliadas a Washington sob pressão, o príncipe herdeiro é chamado a orientar a resposta a Teerão, entre a contenção da escalada e a gestão política da vulnerabilidade do sistema de poder iraniano.
Pelo segundo dia consecutivo, os ataques iranianos atingiram alvos na Arábia Saudita, em Omã – um país que há muito é mediador entre Washington e Teerão e que até agora foi poupado – e nos outros quatro estados do Conselho de Cooperação do Golfo. Os ministros dos seis países reuniram-se para procurar uma linha comum, conscientes de que o centro de gravidade das decisões permanece em Riade e nas escolhas de Mbs. A convocação do embaixador iraniano em Riade pela manhã deu imediatamente um sinal de gestão política da crise: o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros saudita, Walid al-Khereiji, denunciou “agressões flagrantes” e violações da soberania saudita, reiterando que o reino adotará todas as medidas necessárias para defender o seu território. Ao mesmo tempo, Riade esclareceu assim que pretende manter um canal diplomático formal com Teerão mesmo em meio a tensões, presidindo o espaço de negociação e reforçando as suas defesas. Porque a gestão saudita se desenvolve em múltiplos níveis: o príncipe herdeiro conversou com o presidente americano Donald Trump e com uma série de líderes regionais, desde o presidente turco Recep Tayyip Erdogan ao líder sírio Ahmad Sharaa, do sultão de Omã Haytham ben Tariq ao presidente libanês Joseph Aoun, até ao general sudanês Abdel Fattah Burhan.
Contatos e diplomacia
A sequência de contactos traça um rumo político que visa coordenar a postura do Golfo e consolidar Riade como centro de gravidade da resposta regional, evitando a fragmentação e mantendo uma margem de iniciativa autónoma no que diz respeito à dinâmica entre os Estados Unidos e Israel. Os Emirados Árabes Unidos, também atingidos por ataques iranianos, aumentaram o tom. “Não deixaremos pedra sobre pedra para nos defendermos”, disse o ministro Rim al-Hashimi. E à noite o embaixador no Irão foi retirado e a sede diplomática dos Emirados em Teerão fechada. Ao mesmo tempo, porém, veio de Abu Dhabi um apelo ao diálogo, com o conselheiro diplomático Anwar Gargash a sublinhar a necessidade de terminar rapidamente a fase de conflito. A bola está de volta a Riade e para Mbs a questão estratégica é dupla: garantir a reabertura e a segurança total do Estreito de Ormuz no menor tempo possível, afastar os ventos de guerra que ameaçam as rotas energéticas e o tráfego comercial, e capitalizar os resultados desta nova ronda de confrontos, consolidando a posição saudita como interlocutor indispensável para qualquer estabilização. A estabilidade dos mercados energéticos e das rotas marítimas é uma prioridade imediata. Qualquer incerteza prolongada sobre Ormuz traduz-se em volatilidade de preços, pressão de investimento e riscos para a agenda de transformação económica do reino, numa altura em que Riade aspira a ser um centro financeiro e logístico regional. Paralelamente, a crise oferece a Riade a oportunidade de reforçar a sua influência regional. Um Irão sob pressão amplia a margem de manobra da Arábia Saudita nos dossiês do Iraque, do Iémen e do Mediterrâneo, fortalece a centralidade do reino nas mesas diplomáticas internacionais e redefine o equilíbrio interno no Golfo em torno da liderança do príncipe herdeiro.