Quando a liberdade está ferida e fraturada. A estreia narrativa do editor Sandro Ferri

Há liberdades que se conquistam com armas, outras que se defendem nas ruas, outras ainda que são questionadas todos os dias, no mundo do trabalho e nas relações pessoais. «A alma procura outra coisa» (E/O) segue estas trajetórias sem necessariamente fazê-las coincidir, ligando três gerações que lutaram para serem livres, apesar de tudo. Depois de dois livros dedicados à edição – «As ferramentas do comércio» e «L’editore presuntuoso» – para o editor Sandro Ferri, que é cofundador juntamente com a sua esposa Sandra da editora E/O – esta é a sua estreia no mundo da ficção, completando o seu percurso autoral, contando as consequências das escolhas, o preço dos ideais, as fraturas pelas quais passa uma família durante um percurso que abraça o século XX italiano.

O livro de memórias é construído em três níveis narrativos que não buscam uma síntese pacificadora.

Há o pai, Rigo, um partidário na Romanha ocupada, liderando uma brigada de anarquistas e comunistas contra o nazi-fascismo: para Rigo, a liberdade era a guerra, a violência aceite como uma necessidade histórica, mas também o risco, o jogo, a vontade de forçar o destino. Não um herói monumental, mas sim um homem que passa pela história, mas permanece marcado por ela.
Há Sandro, o filho, que nos anos setenta – narrado entre Bolonha e a militância em Lotta Continua – está firmemente convencido de que a liberdade individual não pode ignorar o coletivo, já consciente de que cada escolha produz uma fratura de valores.
Por fim, o olhar volta-se para o presente e o futuro com Eva, a filha, a herdeira chamada a liderar a sede inglesa da editora em plena Brexit: a sua liberdade passa pelo risco empresarial, pela redefinição de um projecto cultural num contexto económico e político árduo, senão hostil. Mesmo ao custo de entrar em conflito com os fundadores, Eva assumirá o fardo de questionar práticas e hábitos há muito estabelecidos, estabelecendo uma nova trajetória.

Três épocas, três variações da história familiar que correm rapidamente, uma saga cheia de acontecimentos. E uma mensagem: a liberdade não é transmitida como uma herança linear, mas é redefinida, quebrada, necessariamente exposta ao conflito geracional.

A “Onironáutica”, a prática dos sonhos lúcidos, intervém para vincular esses planos. Não é um jogo literário nem uma peculiaridade simbólica, é a vontade de entrar num território onde a memória histórica já não é suficiente. O sonho torna-se assim um espaço de confronto direto, em que o filho tenta perguntar ao pai o que a realidade nunca lhe permitiu esclarecer. Sandro conhece o pai, junta-se a ele nos campos de batalha da Resistência, depois na emigração americana e nos casinos de Atlantic City, onde a liberdade e o acaso se aproximam perigosamente. Quando as contas permanecem abertas, a imaginação é o único lugar para voltar a questionar o passado sem domesticá-lo.

As páginas voam mas a questão permanece suspensa: o que é a liberdade e quanto estamos dispostos a arriscar para defendê-la? Em nenhum caso parece ser uma conquista definitiva. Toda escolha envolve uma perda, um rompimento, às vezes uma traição.
Ferri não constrói um épico familiar nem uma autobiografia triunfante; evite a tentação de transformar sua história em um mito pessoal e deixe surgir ambigüidades. Mesmo quando as três vidas parecem se encontrar – no sonho ambientado em Roma em 1944, nos dias do ataque à Via Rasella – não há uma reconciliação definitiva e a escrita permanece sóbria, por vezes elíptica, mais interessada nas reviravoltas morais do que na espetacularização dos acontecimentos.
Os versos de Costantino Kavafis inspiram o título, mas a liberdade não é um destino, antes é uma busca que não garante consolações. Levar a sério significa aceitar que o risco não é um acidente, mas parte da escolha feita.

Felipe Costa