Quem é Greg Bovino, chefe da Patrulha de Fronteira anti-imigrante originário da província de Cosenza

Gregory «Greg» Bovino tornou-se uma figura de importância global quase por acaso, ou melhor, por imagem.

Suas raízes estão em Aprigliano, vilarejo da província de Cosenza, de onde seus pais partiram na década de 1960 em busca de fortuna nos Estados Unidos. Criado no Bronx mantendo um forte vínculo com a identidade calabresa, Bovino encarna hoje aquele paradoxo do “filho de imigrantes” que se tornou o rosto da linha dura contra a imigração ilegal.

A imagem que dá a volta ao mundo

Os vídeos que o retratam em Minneapolis durante as incursões contra os migrantes, com um longo casaco verde oliva, botões dourados e corte de cabelo raspado, correram o mundo. Ele não usa camuflagem nem o colete à prova de balas de seus homens: ele se destaca diante das câmeras como uma figura solitária, reconhecível e deliberadamente diferente.

Ele ordena que os manifestantes abram caminho para ele. Tanto é verdade que os meios de comunicação europeus, na Alemanha mas não só, leram um apelo autoritário nessa estética, falando abertamente de iconografia fascista ou nazi. Em apenas alguns dias, Bovino passou de um funcionário federal conhecido localmente a um símbolo internacional da linha dura da América em relação à imigração.

A infância no Cinturão Bíblico e a formação do caráter

Bovino tem 55 anos e cresceu em Blowing Rock, uma pequena cidade montanhosa no oeste da Carolina do Norte, no coração do chamado Cinturão Bíblico. Um ambiente conservador, comunitário, fortemente marcado pelos valores religiosos e pela ideia de ordem. Na escola pratica luta livre: não é um talento natural, mas é lembrado como disciplinado, determinado, respeitoso com hierarquias.

Uma história familiar de migração

A história de sua família, no entanto, é mais complexa do que sugere sua linguagem pública sobre “lei e ordem”. Do lado paterno, Bovino descende de imigrantes italianos: seu avô Vincenzo era filho de Michele Bovino, mineiro calabresa que emigrou para os Estados Unidos em 1909. Uma história clássica de migração pobre, ocorrida antes das grandes restrições de 1924.

O acontecimento que marca a adolescência

Um acontecimento marca profundamente a adolescência de Greg. Em 1981, quando tinha 14 anos, seu pai Michael Bovino causou um acidente enquanto dirigia embriagado: uma jovem morreu e seu marido ficou gravemente ferido.

O pai acaba na prisão por alguns meses após fazer um acordo judicial, perde o bar que dirigia e o casamento se dissolve. A mãe fica com a guarda dos filhos. Talvez não seja coincidência que, já adulto, Bovino cite frequentemente a questão dos acidentes causados ​​por imigrantes ilegais bêbados como justificação moral para as deportações.

A vocação e o mito da fronteira

No entanto, Bovino diz que decidiu ingressar na Patrulha da Fronteira depois de ver o filme The Border com Jack Nicholson quando criança. Afirma que ficou impressionado porque os agentes pareciam corruptos ou cínicos: queria demonstrar que havia outra forma de “proteger a fronteira”.

Carreira, visibilidade e polêmicas

Alistou-se em 1996. Estudou conservação de recursos naturais e depois administração pública, trabalhou na polícia local e depois ingressou na Patrulha de Fronteira. A sua carreira desenvolveu-se principalmente ao longo da fronteira sudoeste, na Califórnia, até se tornar chefe do setor El Centro, uma das áreas mais sensíveis. Já naqueles anos surgiu uma característica constante: Bovino buscava visibilidade. Organiza operações de mídia, dá entrevistas, cuida da sua imagem.

Numa ocasião – relatada pelo Chicago Sun Times – Bovino convidou jornalistas para o seguirem enquanto ele atravessava a nado um canal de irrigação no Vale Imperial, alertando os migrantes sobre a força das correntes. Ele tem problemas disciplinares pelo uso das redes sociais e é repetidamente criticado por postagens consideradas “muito políticas”. Num podcast de 2021, ele afirma: “Tornar a fronteira segura é minha responsabilidade pessoal”.

A figura pública na era Trump

Com o regresso de Donald Trump à Casa Branca, Bovino assume um novo papel: não apenas de comandante operacional, mas de rosto narrativo da repressão migratória. Ele se autodenomina “comandante em geral”, lidera ataques em cidades distantes da fronteira – Chicago, Minneapolis, Charlotte – e aceita abertamente o papel de figura polarizadora. O casaco de Minneapolis não é um detalhe aleatório: é a construção consciente de um personagem. Enquanto os seus homens permanecem anónimos, Bovino expõe-se, torna-se reconhecível, quase teatral.

Felipe Costa