“Sem contar a ninguém”: aquelas crianças “metades” que não sabemos entender no romance de Giorgio Scianna

«Às vezes alguém se considera incompleto e é apenas jovem», cortado em dois, «dividido pela metade» como o visconde de Calvino, e como Manish de dezesseis anos de idade. «Sem contar a ninguém» (Einaudi), o belo romance de Giorgio Sciannaum escritor paviano que com os seus contos traça um mapa antropológico das relações entre gerações, percorre o campo minado das famílias, investiga as tristezas e os silêncios da adolescência, abordando com a sua prosa simples mas com uma tensão narrativa premente a complexidade das questões sociais.

Aprendemos desde cedo que na vida real, como na ficção, nada é demasiado claro, nada é completo; e certamente aquele meio-ser vivido pelo Visconde Calviniano, aquela incompletude dos jovens mas também dos adultos, é um bem, uma forma de encontro no terreno dos erros mútuos. E a totalidade é uma condição “estúpida e ignorante” (como disse Calvino) da qual é bom libertar-se, para compreender-se e compreender-se.

Manish é um menino “metade”: filho de dois pais separados, ele, Kirti, fotógrafo indiano naturalizado de Londres, ela, Barbara, dermatologista italiana, que voltou para a Itália, para Gênova, para morar com o segundo companheiro e os gêmeos que lhe nasceram. Já Manish, por escolha “compartilhada”, mora com o pai em Londres desde os sete anos, numa convivência caracterizada pela liberdade que faria feliz qualquer adolescente. Assim, num dia de verão, enquanto seu pai pensa que ele está na escola, Manish sai de madrugada para chegar a Roma, onde num parque do centro é preso por tráfico de drogas junto com outros meninos. A mãe corre imediatamente, mas se vê numa situação estranha: todos os meninos são soltos às pressas com muitas desculpas, como se nada tivesse acontecido. Por isso ele pára em Roma com o filho, fechado no seu silêncio educado, para compreender e investigar. O que ele faz com um advogado italiano, incomodando as embaixadas e os “níveis superiores” de onde veio a ordem de libertação dos meninos.

Os dias passam numa Roma surreal entorpecida pelo calor atroz, entre questionamentos sobre as escolhas dos pais (até a pacífica e aquiescente Kirti chegará) e o silêncio educado de Manish que perambula pela cidade em aparente feriado. Mas, como muitas vezes acontece nos romances de Scianna, se as crianças optarem por não responder, então é hora de os adultos se fazerem algumas perguntas, como Barbara e Kirti farão, enquanto revêem o seu papel como pais “abertos” e complacentes.

Qual é o segredo do enigmático Manish, que não fuma nem usa drogas, ainda sem saber quem quer ser na vida, Scianna contará página por página, inspirando-se, como sempre, em acontecimentos reais ainda que livremente reinventados pelo escritor. Mas a história diz respeito aos erros dos adultos quando uma família se desfaz: não basta ser pais honestos e sérios como Kirti e Barbara, não basta ter relações “civis” no casal, não se deve distrair, levar sobre as responsabilidades para com os seus filhos, merecem a sua confiança, entrando no emaranhado da adolescência.

Felipe Costa