João Grande: a comida mineira servida com simpatia

Ponte de Santa Clara
Ponte de Santa Clara é reformada
12/10/2015
oktoberfest
Oktoberfest do Cabanas
16/10/2015
Mostrar tudo

João Grande: a comida mineira servida com simpatia

É difícil ao viajante que passa em Bocaina de Minas ou aos visitantes da cidade deixarem de ir saborear a boa comida mineira do Restaurante do João Grande, até mesmo porque lá “ocêkiserv”. Fica na travessa América Brasileira, na parte baixa da cidade.

Das carnes do feijão à mandioca frita e às saladas tudo passa por ele, inclusive a cachaça, trazida geralmente pelo próprio dos alambiques existentes em grotões e povoados mineiros, que só ele conhece.

A filha Júnia Gomes conta que, em casa, sempre foi o pai quem cozinhou. Aliás, o restaurante – que hoje ocupa uma grande área em um galpão envidraçado e farto estacionamento – começou dentro da própria casa, na esquina da mesma travessa em que hoje está localizado. Havia a sala, com as mesas dispostas, uma outra saleta com mesas e as pessoas se serviam nas panelas sobre um imenso fogão a lenha, ocupando o centro da cozinha, na intimidade mesma do lar.

A esposa de João, Maria das Dores, era merendeira da escola e saía cedo para trabalhar. Hoje, “Das Dores”, como é conhecida, cuida do caixa e supervisiona o funcionamento do restaurante, enquanto João recebe os fregueses, muitos deles velhos conhecidos e frequentadores. Não é pouca coisa, pois o funcionamento é desde manhã cedinho às oito horas da noite, estendendo-se adiante nos finais de semana, caso os fregueses queiram.

Com preços bem populares, mas, sobretudo, com muitos sabores típicos da comida mineira e a marca do tempero da casa, o Restaurante de João Grande atrai gente de tudo que é lugar, desde Resende (RJ) e Penedo, na subida para Visconde de Mauá, a Liberdade, Aiuruoca e até mesmo de Juiz de Fora, a pouco mais de duas horas de distância.

 

O começo na roça como ferreiro

Com uma altura privilegiada de quase um metro e 90cm, que lhe justifica o apelido, o cozinheiro João Grande começou ferrando patas de cavalo. Isso mesmo. Era ferreiro, ofício que aprendeu ainda criança, na roça onde morava com a família. Há 43 anos saiu de sua casa, num dos grotões da Mantiqueira, e foi, ainda bem jovem, para Bocaina de Minas, onde deveria ficar uns 15, 17 dias, resolvendo alguns negócios do ofício de ferreiro e produtor rural.

Está lá até hoje, com sua fazenda produzindo 200 e poucos litros de leite (já foi maior a produção), milho, feijão, frutas e hortaliças, também cultivadas no quintal do Restaurante, na parte baixa do centro da cidade, além das carnes que serve aos fregueses, diariamente, sem descanso, domingo a domingo.

Lá atrás, no início de sua vida e estada em Bocaina de Minas, João Gomes, seu nome de batismo, era ferreiro e mantinha um bar, onde vendia carnes. Seus fregueses eram os viajantes, historicamente vinculados ao surgimento da cidade, nascida para servir de pouso aos tropeiros, mineiros e aventureiros que, na segunda metade do século XVIII, atravessavam a Serra da Mantiqueira.

Eles saíam das jazidas e fontes minerais do ouro e da prata, muito encontradas nas regiões de Aiuruoca, Alagoa, Itamonte, Campina, Itatiaia e outras então aldeias do que hoje chamamos de Montanhas Mágicas e das Nascentes. Aliás, o nome “Mantiqueira” é do vocabulário indígena e significa, em livre tradução, “mãe das águas”.

O ouro, como se sabe, era levado até o porto de Paraty, e o caminho era constituído de trilhas que subiam e desciam serras e cumes, até chegar ao Rio Paraíba do Sul, no que hoje conhecemos como a cidade de Resende. A travessia a barco era sempre sujeita a riscos, face aos ataques dos índios puris, do tronco dos tupis, além dos bandos de salteadores e contrabandistas, tão ou mais temidos quanto os nativos da terra Brasil.

Bocaina de Minas surgiu como um lugar de passagem, de pouso e pernoite desses viajantes, que paravam na então aldeia para o necessário repouso e, no dia seguinte, então, seguir viagem atravessando a Serra do Eme. A direção era o Rio Paraíba do Sul, onde novo repouso era necessário para, na manhã seguinte, subir a Serra do Mar e descer ao porto, onde as ondas se espraiam, como cantam os poetas sertanejos.

E por muito tempo Bocaina seguiu sendo lugar de passagem, onde os viajantes paravam, quando não pernoitavam no bar que João Grande mantinha na cidade, onde vendia pão com carnes. E foi dos fregueses que veio a ideia, como ele mesmo conta. Diziam: “Por que você não faz um arroz com feijão para a gente comer com essas carnes? ”. A sugestão foi ouvida e hoje é um sucesso.

Quando você for à Bocaina de Minas, não deixe de conhecer João Grande. Suas histórias são tão deliciosas, quanto a comida mineira que prepara.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *