A sala está cheia, viva, atravessada por uma energia contida. A atenção dos jovens é vibrante, intensa, quase febril. Para eles, Dante não é um monumento distante, mas um companheiro inquieto: é a inquietação, a ansiedade que toma conta, a frustração que procura palavras e ao mesmo tempo a tentativa obstinada de superá-la. Neste clima tenso e participativo, a sua voz parece necessária. Como se a palavra do Poeta Supremo, no seu eterno regresso, pedisse hoje mais do que nunca para ser novamente ouvida à luz de uma crise não só cultural, mas ambiental, sensível, quase ontológica. O público é internacional no Instituto Cultural Italiano de Amsterdã da Embaixada da Itália na Holanda. A ocasião é significativa: uma releitura “ecocrítica” de Dante, herança italiana mas também uma voz global, num tempo em que a reflexão sobre a relação entre o homem e a natureza se torna cada vez mais urgente.
No centro, o Paraíso Terrestre do Purgatório: não apenas um espaço simbólico ou teológico, mas um ambiente vivo, concreto e sensorial. Um Éden que respira, que vibra de prazer, que envolve o corpo antes mesmo do espírito. É aqui que a dimensão ecológica se revela: Dante não descreve apenas um lugar de perfeição moral, mas um ecossistema intacto, no qual o humano está imerso e participa, não dominador. Quem apresenta esta convincente interpretação da Divina Comédia é o estudioso de Dante Gandolfo Cascio, formado em Palermo e hoje professor na Universidade de Utrecht, comprometido com a promoção da cultura italiana na Europa. E é desenvolvido com dialética apaixonada por Manuele Gragnolati, professor da Sorbonne Université e anteriormente da Universidade de Oxford com a qual mantém vínculo de pesquisa.
Num contexto de exploração textual inovadora e de forte valor civil, Gragnolati constrói um caminho capaz de atravessar os séculos com leveza e precisão, como um equilibrista suspenso entre a linguagem de Dante e a do poeta contemporâneo Andrea Zanzotto. “Ler Dante com Andrea Zanzotto: por uma leitura ecológica do Paraíso Terrestre” é o perímetro temático traçado pela diretora do Instituto, Veronica Manson, para esta imersão numa perspectiva crítica ao mesmo tempo rigorosa e inovadora. A justaposição entre universos semânticos e criativos separados por séculos também se torna, em contrapartida, o ponto mais dilacerante de uma análise ousada, mas totalmente aderente ao texto da Comédia. Porque se o Jardim do Éden de Dante é a harmonia primordial e a antecâmara do Paraíso, o nosso presente aparece como o seu reverso: um inferno moderno, devastado e corrupto. É através desta consciência que a comparação com os Conglomerados de Zanzotto (2010) ganha sentido.
Na poesia extrema e visionária de Zanzotto, a paisagem já não é inocente: está quebrada, contaminada, mas ainda capaz de epifanias mínimas e muito poderosas. O miado ou bocejo de um gato num contexto primitivo transforma-se numa figura simbólica, evocando formas e curtos-circuitos semânticos que evocam, de forma surpreendente, o imaginário de Dante. Um jogo vertiginoso de referências, onde até a decadência guarda traços de beleza.
Neste tecido de ressonâncias também se enquadra idealmente a voz de Elsa Morante, que no seu Paraíso Terrestre recorda como, após a expulsão do Éden, o homem ficou pelo menos com a companhia dos animais, “olhar sem julgamento” capaz de atenuar a amargura do exílio. Uma imagem que dialoga idealmente com a história de Dante e reforça a leitura ecológica proposta no encontro.
E depois há Matelda. Figura luminosa e evasiva, colocada por Dante para guardar o Éden, ela surge como uma ninfa da floresta, uma presença corpórea e mítica, mais próxima das metamorfoses de Ovídio do que de uma alegoria abstrata. Nela coexistem graça, naturalidade e gesto: é ela quem introduz Dante na experiência do Paraíso Terrestre não através do dogma, mas através do contato, do movimento, da percepção. Não é por acaso que a referência às Metamorfoses e à Ars amandi – entendida como “techné”, a arte de viver e de transformar – abre um novo nível de profundidade: a natureza não é estática, mas fluida, mutável e o humano é parte integrante dela. Para fechar o círculo, a intervenção do professor Cascio chama a atenção para um ponto essencial: a prioridade da adesão literal ao texto de Dante. Numa época propensa a interpretações arbitrárias, o retorno à palavra, à sua concretude e precisão, torna-se não apenas um ato filológico, mas também ético.
Surge uma reflexão densa e atual, capaz de mostrar como Dante não pertence ao passado, mas é uma lente poderosa para questionar o presente. E talvez, no silêncio inefável do seu Paraíso Terrestre, continue a ressoar uma questão urgente: seremos ainda capazes de habitar o mundo como um jardim?