Ormuz, a trégua já está em risco: o Estreito continua refém da guerra. Vance pressionando o Irã: “É a vez deles”

A esperança de um regresso à normalidade no Estreito de Ormuz, um centro estratégico para o tráfego energético global, durou algumas horas. O anúncio noturno do presidente dos EUA, Donald Trump, de um cessar-fogo de duas semanas com o Irão, ligado à reabertura da passagem, reavivou inicialmente as expectativas, com alguns navios conseguindo transitar sem incidentes.

Mas a sucessão de declarações e negações, juntamente com a propaganda de Teerão que evoca mais uma vez um possível encerramento do estreito devido à escalada israelita no Líbano, trouxe de volta a incerteza ao cenário. O que está claro é que Ormuz continua a ser um ponto central do conflito e das tentativas diplomáticas para resolvê-lo.

Tráfego reduzido e navios bloqueados

A partir de Washington houve um aumento no tráfego nas últimas horas, mas os números continuam longe do normal. Os primeiros navios a tirar partido do cessar-fogo foram o graneleiro grego NJ Earth e o Daytona Beach, de bandeira liberiana, segundo dados da MarineTraffic.

No entanto, estes são casos isolados. Segundo Kpler, entre 1º de março e 7 de abril, uma média de oito navios por dia cruzaram o estreito, cerca de 95% menos que no período anterior ao conflito. Dos 307 trânsitos registados, 199 envolveram petroleiros e petroleiros, a maior parte deles rumo a leste, no Golfo de Omã. Seis em cada dez estavam ligados ao Irão, percentagem que sobe para oito em cada dez considerando apenas os petroleiros.

Entretanto, cerca de 800 navios ficaram encalhados no Golfo desde o final de Fevereiro. Há um total de 172 milhões de barris de petróleo bruto e produtos refinados no mar, distribuídos por aproximadamente 187 petroleiros.

O cerne do controle e o risco de pedágios

Entre os pedidos feitos por Teerão, emerge o desejo de manter o controlo do estreito através de um sistema de trânsito regulado pelas suas forças armadas. Segundo rumores, o objetivo é também formalizar um sistema de pedágio, já aplicado informalmente nas últimas semanas, que poderá ser solicitado em criptomoedas.

Uma perspectiva que suscita fortes dúvidas entre analistas e especialistas em direito internacional. A introdução de uma portagem representaria um precedente sem precedentes e poderia entrar em conflito com a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, bem como expor os armadores a possíveis sanções.

Ameaças e presença militar

A Marinha iraniana alertou entretanto que qualquer navio que transite sem autorização será “alvejado e destruído”. Ao mesmo tempo, o presidente francês, Emmanuel Macron, informou que cerca de 15 países estão envolvidos numa missão “estritamente defensiva” para garantir a segurança na área.

Do lado americano, o secretário da Defesa, Pete Hegseth, garantiu que as forças norte-americanas permanecerão na região durante o cessar-fogo para garantir a segurança da passagem.

Apesar das aberturas, a situação no Estreito de Ormuz continua instável e longe de uma solução definitiva.

As palavras de Vance

Cabe ao Irão decidir “se vai explodir” a trégua por causa do Líbano. O vice-presidente dos EUA, JD Vance, disse a Teerã para “dar o próximo passo” em direção à paz, caso contrário os Estados Unidos avaliarão “muitas opções” para retornar à guerra. «Acredito que o Presidente Trump conseguiu um bom acordo para o povo americano. Mas, fundamentalmente, os iranianos têm de dar o próximo passo, caso contrário o presidente terá muitas opções para voltar à guerra”, acrescentou Vance.

Felipe Costa