«Quando se trata de amigos, interesso-me… com os outros afasto-os mal… mas há quem possa ser expulso e quem não possa». É nesta frase que se condensa o poder discricionário exercido pelo patrão Pino Piromalli sobre o território de Gioia Tauro. E ainda: «Este amigo precisa… temos que dar-lhe», ou «sabemos que Pino Piromalli está aí e antes de fazermos um trabalho…», até ao resumo mais explícito: «tenha sempre em mente que Piromalli é seu amigo… e não há como fugir».
São passagens que, lidas no seu conjunto, transmitem a substância da investigação “Res Tauro”: um sistema em que a iniciativa económica está subordinada a uma autorização informal mas essencial, a do líder do bando. Em Gioia Tauro, para trabalhar não bastavam capital, ideias ou competências empreendedoras: era necessária a luz verde da ‘Ndrangheta. Este é o quadro que emerge dos documentos da investigação, onde o porto e a sua zona industrial aparecem como um espaço regulado por equilíbrios criminais antes mesmo das regras do mercado.
O diálogo entre Piromalli e este “Enzino”, empresário de Gioia, é, neste sentido, paradigmático. O patrão esclarece as regras: “forasteiros” são rejeitados, mas não quando pertencem a gangues aliadas. Nesse caso, prevalece uma lógica de reciprocidade que exige favorecê-los mesmo ao custo de sacrificar os interesses locais. “Eles são nossos amigos”, explica, dando a entender que ser membro da máfia é uma qualificação preferencial para fazer negócios.
É neste contexto que Piromalli explica a “Enzino” o que lhe é pedido: um verdadeiro retrocesso para permitir que um sujeito ligado à ‘Ndrangheta da zona jónica se instale na zona, cedendo efectivamente espaço e oportunidades económicas. O patrão é claro: “esse amigo precisa… temos que dar para ele”, esclarecendo também o objeto concreto da operação: “se ele quer aquele terreno… temporário… na frente… que tem seiscentos metros de terreno…”. E expõe ainda mais claramente a fase final: “quando eles estiverem prontos, você dá as chaves”. “Enzino” compreende o sentido do pedido e cumpre sem oposição: «ele pode ir, pode ir e fazer o que quiser… Estou juntando as minhas coisas e vou-me embora».
Reforçando o quadro está o trecho em que Piromalli relembra um caso concreto, o de Antonino Mangione, apontado como exemplo de empresário no qual a quadrilha tinha interesses diretos. Um caso que hoje ganha ainda mais relevância, porque a sua posição entre os suspeitos cria evidente constrangimento a nível público, tendo em conta os seus laços familiares com o prefeito Scarcella.
As palavras são explícitas: «de Gioia… veio um homem de Gioia, e colocámo-lo em Vibo… colocámo-lo… para que ele possa fazer o seu negócio, certo?… de Vibo então… ele está no porto de Gioia…». Um movimento que fotografa a lógica da compensação entre gangues: espaços concedidos em outros lugares em troca de acesso ao território estratégico do porto.