O imponente portal gótico da catedral de Notre-Dame fica no centro da cena enquanto o canto gregoriano surge do silêncio. Com estas sugestões abriu-se a cortina do espetáculo “La corte deimirali”, com curadoria da “Compagnia Marvan” dirigida por Mariangela Bonanno com direção de Valerio Vella e a extraordinária participação do cantor Marco Vito. A magia do teatro transformou o palco do Vittorio Emanuele na festiva e colorida praça parisiense, povoada pelos personagens icônicos nascidos da pena de Victor Hugo e apresentados no famoso musical de Riccardo Cocciante.
Nos dois atos do espetáculo proposto na temporada de Música e Dança do Ente Teatro – e concebido, segundo o próprio diretor Vella, como uma “ópera de balé” – as coreografias de Mariangela Bonanno, Alice Rella, Giorgia Di Giovanni, Domelita Abate, Jo Prizzi, Gianluca La Spada, Desirèe Trovatello, Gianni Berta e Francesco La Vecchia trouxeram de volta ao público os acontecimentos do famoso romance publicado por Hugo em 1831: o amor comovente entre o deformado Quasimodo e a bela cigana Esmeralda, a opressão perpetrada pelo arquidiácono Frollo, o clamor do “Festival dos Tolos” e a escuridão do “Tribunal dos Milagres”, tendo como pano de fundo claro uma Paris do final do século XV dividida entre o medo social do “diferente” e a redenção popular.
A operação artística de homenagem ao musical, bem como aos dois filmes hoje cult da Disney, corria o risco, diga-se, de confundir ainda mais os contornos daquele que é hoje um clássico da literatura universal, interpondo novas interpretações entre o original e a versão eminentemente balética proposta por “Marvan”. O risco parecia ter sido finalmente evitado, com a presença na “estréia” na noite de sexta-feira: a atuação cênica da companhia de dança totalmente messiana foi narrativamente coerente e fluida, assim como a direção pontual de Vella, embora algumas cenas corais parecessem desiguais na gestão dos espaços e na sincronicidade das linhas coreográficas. Particularmente convincentes são Giuseppe Licitri no papel de Quasimodo e Mara Pulitano e Simona Squillaci no papel de Esmeralda (em dupla personificação). Mas Clopin de Marco Mondì, Febo de Maurizio Russo, Alberto Guarnera no papel de Frollo e Ilaria Raffa no papel de Madellaine também estiveram à altura da tarefa.
É notável a contribuição do cantor siciliano Marco Vito, que já conta com uma estreita colaboração artística com Cocciante há vinte anos, tornando-se protagonista de uma esplêndida interpretação de “Il tempo delle Cathedrali” no início do segundo ato. Também boa foi a atuação da cantora Denise Truscello, incisiva intérprete de alguns temas célebres confiados à personagem Esmeralda e da canção “Voilà” de Barbara Pravi, que apareceu há alguns anos na Eurovisão e que acabou por ser, talvez, a escolha menos bem sucedida de toda a atuação. E novamente as excelentes atuações das bailarinas Denise Truscello e Sharon Tartaro e do dançarino Kostantin Hryhor’ev, Carmelo Alati no papel de chefe dos malabaristas e no dos acrobatas Gianni Berta e Francesco La Vecchia.
Os figurinos desenhados pelos alfaiates Xanto de Palermo, Harmony e Majoca são magníficos e o videomapping de Mario Bruno e as luzes de Danilo La Rosa são excelentes. A grande final foi repleta de aplausos, com mais duas e apreciadas atuações de Denise Truscello e Marco Vito.