A geografia da alma do egípcio Shady Lewis

Uma história sobre a migração que nos preocupa a todos porque somos todos migrantes, “On the Greenwich Meridian” do escritor egípcio Shady Lewis, traduzida pela primeira vez para o italiano por Alba Rosa Suriano que também assina o detalhado posfácio, e publicada na bela série “La Piccola” da Mesogea. Quatro paragens, Messina, Ragusa, Catania e Cosenza para um romance que aborda temas reais e complexos com um toque irónico-visionário.

«Uma história que nasceu não para contar a história da migração – diz Lewis – porque em Londres mais de 50% das pessoas vêm de outros países, é por isso que a migração se tornou uma parte importante da narrativa e da vida. Tal como nos meus outros romances de autoficção, conto com imaginação coisas reais, experiências de solidão, o medo de morrer sozinho, porque a imaginação numa história verdadeira é muito mais forte.” Uma história também “para imaginar o lugar dos migrantes noutros países”, como o próprio Lewis, que nasceu no Cairo onde estudou engenharia antes de se mudar para o Reino Unido em 2006, onde depois de estudar psicologia trabalha como assistente social.

O escritor falou sobre isso nos dois encontros realizados em Messina no dia 24 de março: no DICAM com Daniela Potenza (professora de língua e literatura árabe), Salvatore Speziale (professor de história e instituições de África) e Shadi Al-Jaqqal colaborador linguístico que o traduziu do árabe, e na livraria Mondadori Ciofalo com Giuliana Sanò (professora de Antropologia Social), Elena Grimaldi (de a editora Mesogea) e Mariagrazia Costa que o traduziu do inglês.

Muitos temas são desvendados com uma história fluida mas articulada do narrador, cujo percurso de vida kafkiano «é como um teste contínuo que serve para testar a resistência de quem migra» recorda Lewis: entre o desencanto e o paradoxo, «sem medo e sem esperança» (mantra do próprio escritor), o protagonista observa, dando voz a outras personagens, o sistema, entre mecanismos de discriminação, labirintos burocráticos desumanizadores e marginalização que o “migrante” de qualquer parte do mundo tem de enfrentar. cara. Permanecendo equilibrado entre o leste e o oeste, “no meridiano de Greenwich”, sempre com aquela “condição de estranhamento causada pelo exílio (o ghurba, tema caro à ficção árabe contemporânea)”, escreve Suriano.

O protagonista é um egípcio de família cristã copta (como Lewis) que mora em Londres e faz um trabalho discreto em um escritório que trata da atribuição de moradias à base da cadeia social. Um dia ele recebe um telefonema de um amigo do Cairo que lhe pede para cuidar do funeral de um jovem refugiado sírio que morreu sozinho em Londres depois de inúmeras vicissitudes contadas em tom de fábula (o khurafat da tradição árabe pós-moderna, mas também clássica) e simbolicamente atribuído a ele para contar as terríveis vicissitudes de muitos outros. Portanto, o tema da morte está presente do início ao fim da narrativa, já que no Egipto, recorda Lewis, «os rituais ligados à morte são muito importantes e servem para fortalecer os laços sociais», mas reflectindo sobre o facto de que se «cada morte é o fim de um mundo único com os seus detalhes irrepetíveis», há, no entanto, muitas «pequenas mortes, cada relação, tudo o que termina é uma pequena morte», perdendo mesmo a individualidade quando se é catalogado numa categoria: os “negros”, os os “brancos”, os “refugiados”, os “muçulmanos”, como o protagonista que é sempre considerado “muçulmano” apesar de ser cristão.

Sem nunca desviar a atenção da realidade egípcia, o olhar político-sociológico do narrador vai desde o processo de integração na época das lutas operárias do início da década de 1980 no Norte de Itália até à política de austeridade britânica com cortes no Estado social e o esvaziamento da função de assistência aos cidadãos, da política neoliberal de Thatcher à “distopia capitalista da cultura do século XXI – escreve Suriano no posfácio – em que o personagens deste romance se movem”.

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Felipe Costa