Da Ucrânia à crise no Médio Oriente, Mattarella em Salamanca: «A Europa diz não à lei do mais forte»

Do grande salão da Universidade de Salamanca, um dos berços do pensamento jurídico europeu, Sergio Mattarella lança um alerta que soa como um aviso final à política internacional. Não é apenas uma lectio magistralis: é uma acusação contra o que o Chefe de Estado define como uma “vis destruens” que está a desmantelar, pedaço por pedaço, a ordem mundial construída sobre os escombros do século XX.

O Presidente fotografa uma realidade perturbadora: o regresso a uma espécie de estado de natureza entre as nações, onde o direito internacional é rejeitado como um obstáculo irritante. «Assistimos à deslegitimação dos Tribunais Internacionais e dos seus juízes, negando o valor do direito internacional», denuncia Mattarella. O resultado é uma arbitrária “terra de ninguém”, um vazio regulatório que se torna palco de “ataques injustificados”, de expansões comerciais agressivas e da criação de supostas áreas de segurança que esmagam os povos mais pobres.

Segundo Colle, não estamos perante uma mudança fisiológica de paradigma, mas sim com o desejo deliberado de eliminar os limites à soberania do Estado para permitir que as potências “mais ricas e melhor armadas” exerçam uma hegemonia desenfreada.

Da Ucrânia ao Médio Oriente: a agressão como norma

O cerne do discurso de Mattarella toca as feridas abertas dos conflitos contemporâneos. O Chefe de Estado traça uma linha clara que une a invasão russa às crises mais recentes: a agressão russa na Ucrânia validou a ideia de que a força pode ser “praticada regularmente” nas relações entre Estados. Médio Oriente: desde o ataque terrorista do Hamas em 7 de Outubro de 2023 até à escalada que envolve hoje o Irão e o Líbano, foi criado um “arco de crise” sem resultado aparente.

Neste cenário, os três pilares da civilização moderna – proibição do uso da força, igualdade soberana dos Estados e direitos humanos – parecem vacilar sob os golpes de uma visão puramente contratualista da política externa.

O papel da Europa: o dever de dizer “Não”

Perante a “recessão do modelo cooperativo”, Mattarella atribui à União Europeia uma missão precisa e indelegável. Não se trata apenas de mediar, mas de se opor ativamente a um declínio moral e jurídico. “Cabe à Europa saber dizer não”, exorta o Presidente. Um “não” firme à multiplicação de frentes de crise e à afirmação de que a força bruta pode substituir a norma partilhada. A mensagem de Salamanca é clara: se a Europa abdicar do seu papel de guardiã da lei, o mundo deslizará definitivamente para uma era de instabilidade global onde apenas os mísseis, os drones e as armas nucleares decidirão.

Felipe Costa