Bem-vindo ao parque de diversões Babilonia Teatri, onde a palavra, falada como um fluxo de consciência e não recitada, e a música, composta por bordões, contam a loucura cotidiana do nosso presente. Uma encenação profundamente irreverente, cheia de surpresas graças a um turbilhão de palavras e notas, eis «Calcinculo», espetáculo que serviu de antevisão à 15.ª edição do Festival Cortile Teatro, nascido da intuição de Roberto Zorn Bonaventura – diretor artístico –, Giuseppe Giamboi e Stefano Barbagallo, que se confirma como um acontecimento muito aguardado do verão de Messina apesar dos locais que o acolheram terem mudado ao longo dos anos.
Pela primeira vez, o evento que, com obstinada atenção, cuidado e presença, trouxe às margens do Estreito alguns dos mais conhecidos nomes do teatro contemporâneo, foi realizado no Coral Garden, onde a companhia veronesa fundada e dirigida por Enrico Castellani e Valeria Raimondi propôs ao público atento e participante um espetáculo de ritmo acelerado, em que música e teatro se misturam e dialogam de forma incessante e vertiginosa.
Numa cena esparsa, para deixar espaço à palavra, numa alternância de monólogos intensos e peças musicais (ao som de Lorenzo Scuda de Oblivion), «Calcinculo», que lembra o carrossel com assentos voadores dos parques de diversões da cidade, faz do jogo a diretriz de uma narrativa desenhada para pintar as fobias, o racismo, as obsessões, as contradições de uma humanidade perdida e assustada pintada por uma dramaturgia apertada, que contamina linguagens e intenções.
«Vivemos um tempo obsessivo que as palavras e as imagens já não conseguem contar por si mesmas – explicam Raimondi e Castellani que com «Calcinculo», que estreou no festival Primavera dei Teatri de Castrovillari, confirmam e continuam na esteira de um percurso poético reconhecível empenhado em olhar e questionar o presente e as suas derivações -; a música vem em socorro como um remédio ou como um estopim explosivo.” A intenção fica clara desde os primeiros monólogos que Castellani conduz com firmeza e tensão, de minar as certezas e partir dos clichês da contemporaneidade, mostrando fissuras e delírios. Uma canção direta, cortante e irônica, sem pretensões, onde revelamos os medos que norteiam nossas ações, temperadas com desejos quebrados, paranóias e desilusões às quais as músicas interpretadas por Valeria Raimondi funcionam como contraponto, em um troca sempre viva entre palavra e música.
Uma roupagem pop para fotografar hoje, suas perversões e suas fugas de si mesmo, temperada com uma exposição canina hilariante e improvável para decretar a “beleza objetiva” conduzida por Castellani, um ladrador convicto, que no entanto acaba se tornando mais uma contradição de um sistema em eterno curto-circuito, e culminou com a atuação de um – falso – coro de Alpini para reforçar valores e intenções.
«São obras – recorda Roberto Zorn Bonaventura – que optam por ficar onde o presente se rompe, a nosso ver necessário, porque sentem a necessidade de se tornarem palavras, canções, subtítulo desta décima quinta edição». O Festival é organizado pelo Castello di Sancho Panza com a contribuição da Fundação Messina para a Cultura e com o apoio da Latitudini, rede de teatro siciliana. Gráficos de Riccardo Bonaventura.