O padre antimáfia Marcello Cozzi e o apelo à responsabilidade civil

Com “Não interfira. O sangue dos padres no altar da máfia”, Marcello Cozzi entrega ao público um dos textos mais necessários e corajosos da antimáfia contemporânea. Ontem à tarde, o volume foi apresentado na sala de aula Solano da Universidade da Calábria, na presença de 200 alunos inscritos no curso de Pedagogia Antimáfia, no âmbito de um seminário dedicado ao papel da Igreja no combate à cultura mafiosa.

O padre lucaniano foi apresentado por Giancarlo Costabile do DiCES. Don Marcello também é coordenador do Instituto “Don Peppe Diana” de Pesquisa e Formação Interdisciplinar sobre máfias da Pontifícia Faculdade Teológica do Sul da Itália de Nápoles, seção San Tommaso. “Não interferir” não é apenas um livro de memórias, nem um simples catálogo de histórias: é um ato de restituição, um apelo à responsabilidade civil e eclesial, um exercício de verdade num país onde muitas vezes as máfias são percebidas como fenómenos externos, separados, “outros que nós”.
Cozzi, que sempre esteve envolvido no apoio às vítimas de crimes e na luta contra a máfia social, cria uma obra que é ao mesmo tempo denúncia, testemunho e meditação espiritual. O título, Não interfira, lembra a ordem da máfia que se estende por décadas de história criminal: não atrapalhe, não perturbe o poder, não defenda os fracos, não quebre a lógica do controle. É a frase que as máfias repetem a quem ousa desafiar o seu domínio, e que estes sacerdotes – homens normais, muitas vezes desconhecidos – romperam com a força do Evangelho. O coração do livro é uma longa galeria de sacerdotes que escolheram «interferir»: homens que, vivendo quotidianamente a sua missão pastoral em bairros difíceis, em subúrbios abandonados, em cidades marcadas pela chantagem mafiosa, encarnaram o Evangelho como prática de libertação.

Alguns são nomes bem conhecidos – Don Pino Puglisi e Don Peppe Diana acima de tudo – mas muitos outros são figuras esquecidas ou nunca realmente conhecidas. Cozzi os traz de volta à luz, restaurando a dignidade de existências que muitas vezes a retórica, ou pior, o silêncio, obscureceram. Nestas páginas entrelaçam-se a Sicília, a Calábria, a Campânia, a Apúlia, cada uma com o seu rosto e as suas feridas.

A força do livro está justamente aqui: na recusa de criar “heróis”, mas no desejo de trazer à tona pessoas reais, sacerdotes que erraram, temeram, resistiram, amaram. Figuras “imperfeitas”, mas luminosas na sua coerência evangélica.
Cozzi não constrói uma história apologética. Ao lado das testemunhas corajosas há a sombra dos silêncios eclesiais, das ambiguidades, das timidezes institucionais. A Igreja surge como um espaço de luz, mas também como um lugar atravessado pela fragilidade: párocos isolados, bispos excessivamente prudentes, comunidades divididas entre o medo e o vício. Não se trata de acusar, mas de mostrar quão difícil – e corajoso – foi para alguns padres quebrar a rede de cumplicidade e silêncio que as máfias conseguiram construir até nos territórios de fé.

“Não interfira” é também um texto profundamente teológico no sentido mais vívido: a fé como carne, como relação, como gesto. Cozzi fala de um “Evangelho vivido”, feito não de abstrações, mas de escolhas cotidianas: defender um menino, recusar a bênção de um patrão, denunciar um local de tráfico de drogas, quebrar a lógica do favor, proteger uma testemunha.
Numa época em que a palavra “martírio” corre o risco de ser relegada aos séculos antigos, o livro traz-na de volta à contemporaneidade: o martírio como lealdade à justiça, como responsabilidade, como amor ao próximo à custa da própria vida. “Do Not Interfere” é um livro necessário. Necessário para a Igreja, porque a obriga a lidar com a sua própria história recente. Necessário para a sociedade civil, porque mostra como a justiça não é um conceito abstrato, mas uma escolha diária. Necessário para quem estuda máfias, porque ilumina uma área ainda pouco explorada: a relação entre fé e poder criminoso.

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Felipe Costa