Rei Carlos III no Congresso dos EUA: “Aliança com Washington indispensável, mais importante hoje do que nunca”

Num ambiente solene e altamente simbólico e após a cerimónia oficial de boas-vindas na Casa Branca com o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o Rei Carlos III proferiu hoje um detalhado discurso perante uma sessão conjunta do Congresso americano, por ocasião da visita de Estado a Washington e das comemorações do 250º aniversário da Declaração da Independência. O soberano britânico fez um longo discurso perante membros do Congresso, líderes institucionais e representantes do povo americano, definindo o momento como “uma ocasião de extraordinário significado histórico” e reiterando a profundidade do vínculo entre o Reino Unido e os Estados Unidos. “Há mais de quatro séculos os nossos destinos nacionais estão entrelaçados”, declarou Carlos III na abertura, agradecendo o convite e o acolhimento dado a ele e à Rainha. “Hoje estou aqui em nome do povo britânico para prestar homenagem à democracia americana e à longa amizade que une as nossas duas nações.”

As raízes históricas: da Carta Magna a 1776

Uma das passagens centrais do discurso dizia respeito à natureza histórica da relação entre Londres e Washington, nascida de uma fractura mas que evoluiu para uma das alianças mais sólidas da história moderna. Recordando o espírito de 1776, Carlos III sublinhou como o nascimento dos Estados Unidos representa uma ruptura e uma continuidade com a tradição política e jurídica britânica: “A nossa parceria nasce da dissidência, mas torna-se fortalecida precisamente por ela. O Rei destacou como ambas as nações partilham raízes comuns no direito constitucional, na tradição parlamentar e nos princípios do Estado de direito, recordando a influência da Carta Magna de 1215, da Revolução Gloriosa e da Declaração de Direitos Inglesa de 1689, até ao seu eco na Constituição Americana e na Declaração de Direitos de 1791. “A Carta Magna continua a ser citada em dezenas de decisões do Supremo Tribunal dos Estados Unidos”, observou, sublinhando a profundidade da matriz jurídica partilhada.

O contexto internacional: conflitos, tensões e violência política

Carlos III dedicou então amplo espaço ao contexto internacional, definindo-o como “uma era de grande instabilidade e incerteza”, marcada por conflitos na Europa e no Médio Oriente e por novas ameaças à segurança global. Neste contexto, o soberano sublinhou a necessidade de uma resposta comum entre aliados: “Encontramo-nos em tempos de conflito e tensão que testam a comunidade internacional e as nossas sociedades”. O Rei referiu-se também aos recentes episódios de violência política nos Estados Unidos, condenando-os veementemente: “Tais actos nunca terão sucesso. Quaisquer que sejam as nossas diferenças, continuamos unidos na defesa da democracia e na protecção dos nossos cidadãos”. Uma das passagens mais fortes do discurso foi dedicada à aliança estratégica entre os Estados Unidos e o Reino Unido, definida como “indispensável” e “mais importante hoje do que nunca”.

NATO, Artigo 5.º e cooperação militar: do 11 de Setembro a Aukus

Carlos III recordou o papel central da cooperação no seio da NATO e nos principais teatros de crise das últimas décadas, desde o Afeganistão às guerras mundiais, até à Guerra Fria e à resposta ao terrorismo internacional após o 11 de Setembro. “Quando a NATO invocou pela primeira vez o Artigo 5º após o 11 de Setembro, respondemos em conjunto”, lembrou, acrescentando que “as nossas forças armadas, os nossos serviços de inteligência e as nossas estruturas de segurança estão profundamente integrados”. O soberano citou ainda a colaboração industrial e militar entre os dois países, incluindo programas conjuntos como a produção de caças F-35 e o projeto do submarino AUKUS com os Estados Unidos e a Austrália. Amplo espaço foi também dedicado à dimensão económica da relação bilateral. Carlos III destacou o valor do comércio entre os dois países, que ascende a centenas de milhares de milhões de dólares por ano, e o enorme volume de investimentos mútuos.

430 bilhões de intercâmbios e cooperação tecnológica

“430 mil milhões em comércio anual e mais de 1,7 biliões em investimentos mútuos representam uma base extraordinária para a nossa prosperidade comum”, disse ele. O Rei sublinhou também o papel central da cooperação tecnológica e científica, com particular referência à inteligência artificial, à computação quântica, à investigação farmacêutica e à inovação energética. “Essas parcerias têm o potencial de salvar inúmeras vidas e impulsionar a próxima onda de progresso global”, disse ele. No seu discurso, Carlos III recordou também o papel da cooperação académica e cultural, citando em particular o programa Marshall Scholarship, que permitiu a milhares de estudantes americanos estudar no Reino Unido. As relações entre os dois países, observou, “não são apenas políticas ou económicas, mas também profundamente humanas e culturais”, baseadas em trocas de ideias, formação e valores partilhados.

Clima, meio ambiente e a chamada final: “Deus abençoe os EUA e o Reino Unido”

Uma passagem significativa foi dedicada à protecção ambiental e à crise climática, definida como um desafio estrutural para a segurança e prosperidade futuras. Carlos III sublinhou como “os sistemas naturais constituem a própria base das nossas economias e da nossa segurança nacional”, apelando a uma acção conjunta para preservar o património natural global. Ao concluir o seu discurso, o Rei recordou o valor da responsabilidade partilhada entre as duas nações, especialmente num momento histórico delicado. “A história do Reino Unido e dos Estados Unidos é de reconciliação, renovação e cooperação extraordinária”, disse ele. “Desde a divisão, construímos uma das alianças mais significativas da história da humanidade.” Finalmente, um apelo a não nos fecharmos, mas a reforçarmos a cooperação global: “As nossas ações contam mais do que as nossas palavras. Renovemos o nosso compromisso mútuo ao serviço dos nossos povos e do mundo inteiro”. O discurso terminou com um desejo solene: “Deus abençoe os Estados Unidos da América e o Reino Unido”.

Felipe Costa