Um artigo assinado por um grupo heterogéneo de estudiosos – arqueólogos, biólogos, geólogos e médicos (!!) – acaba de aparecer numa revista científica italiana, mas em inglês, que relança uma tese tão sugestiva quanto controversa: os Bronzes de Riace não foram encontrados em águas calabresas, mas sim no fundo marinho de Siracusa. O artigo, que promete reabrir um debate aparentemente encerrado, introduz algumas inovações atribuídas ao geólogo prof. Cirrincione da Universidade de Catânia. Ele afirma ter identificado uma correspondência entre a chamada “terra de soldagem” presente nos Bronzes e algumas argilas locais da região de Siracusa, pista que – se confirmada – poderia redesenhar a geografia da restauração das armas do Bronze B, até agora sem dados científicos convincentes.
Porém, como é bom lembrar, essas hipóteses exigem uma verificação cuidadosa por parte de quem atua profissionalmente na área da arqueometria. Só análises técnicas realizadas por especialistas poderão esclarecer se as argilas citadas constituem realmente provas significativas: será necessário, portanto, esperar por provas concretas antes de tirar conclusões precipitadas.
Esta suposta “descoberta” é acompanhada no artigo por um longo artigo de interpretações arqueológicas, visando redefinir a identidade dos dois guerreiros. Esta é uma operação bastante surpreendente: não só porque parece pelo menos incomum ler conjecturas semelhantes numa revista de geologia, mas também porque as reconstruções figurativas apresentadas são retiradas quase idênticas dos meus estudos e dos meus ensaios dedicados aos Bronzes de Riace, sem que a autoria das elaborações seja reconhecida.
As ilustrações, aliás, derivam de reconstruções profissionais do designer visual Saverio Autellitano, mas mesmo neste caso a fonte não é citada. A única alteração realizada – uma improvável corrente acrescentada ao braço esquerdo do Bronze B – não altera a substância das imagens que permanecem resultado de trinta anos de pesquisas e estudos. A bibliografia que acompanha o artigo, portanto, parece bastante pequena e desatualizada, com alguns erros de digitação.
Os “novos” argumentos, aliás, em nada afectam a interpretação histórica que vê os Bronzes criados em Argos, posteriormente passados por Roma e finalmente destinados a Constantinopla.
Em apoio a uma descoberta em Riace, restam, portanto, dados concretos provenientes dos estudos realizados pela Dra. Antonella Privitera do CNR, que demonstram como as concreções presentes nas estátuas são compostas por seixos de rio incompatíveis com o fundo do mar da Sicília, mas completamente consistentes com as condições marinhas de Riace. As observações biológicas também requerem uma verificação mais aprofundada, mas a própria Privitera esclareceu precisamente que os serpulídeos – pequenos organismos que formam os característicos tubos carbonáticos visíveis em algumas partes das estátuas – vivem muito bem em águas costeiras rasas, com um óptimo entre 5 e 20 metros, também frequente entre 0 e 5 metros, e em temperaturas entre 12 e 25 °C. Abaixo de 12 °C seu crescimento é inibido, assim como em condições de pouca luz. Em vez disso, é necessária uma corrente dinâmica para garantir o fornecimento de nutrientes. Todas estas características são perfeitamente compatíveis com o trecho de mar de Riace e não com os fundos marinhos mais profundos e frios de Siracusa.
À luz destes elementos científicos, continua a ser difícil compreender o significado desta nova onda de confusão alimentada por certos meios de comunicação e programas de televisão em busca de sensacionalismo.
A enésima “redescoberta” dos Bronzes de Riace, proposta novamente sem verificação e com pouca cautela metodológica, corre o risco de lançar uma sombra sobre décadas de estudos sérios e documentados.
*Professor Titular
de Numismática
na Universidade de Messina