São Francisco de Assis, espiritualidade e o “pianista eremita” Mario Mariani

O vento da espiritualidade está soprando novamente, impulsionado por uma nova era de ansiedade. A turbulência geopolítica abala todas as certezas e a apreensão procura no transcendente uma confiança renovada no futuro. Como num quebra-cabeça de coincidências premonitórias, este ano marca o 800º aniversário da morte de São Francisco de Assis (1181/82-1226), padroeiro da Itália e figura central da espiritualidade mundial pela sua mensagem de paz, bem como de pobreza e amor pela natureza. Valores que ligam Assis à Calábria e ao seu padroeiro, San Francesco di Paola, com um fio antigo e tenaz. E não só porque, segundo a tradição, os pais da santa Paula obtiveram o nascimento do filho após solicitá-lo por intercessão de Francisco de Assis, dando-lhe então esse nome.

Esse fio, que atravessa a Sicília e se desenrola desde o Mediterrâneo até aos lugares dos que procuram a paz, é o encanto ecuménico da espiritualidade franciscana: uma força capaz de falar diferentes línguas ao longo dos séculos, desde a pregação à devoção popular, até ao cinema e à música. É o fio que se reúne na obra-prima do cinema mudo “Frate Sole” (Itália 1918), dedicada à figura do santo de Assis e reavivada pelo seu extraordinário impacto ético por vários Institutos Culturais Italianos de todo o mundo por ocasião do oitavo centenário da sua morte.

Hoje, o seu poder evocativo é restaurado pela banda sonora interpretada ao vivo por Mario Mariani, o compositor de Pesaro capaz de transformar o som numa experiência envolvente. O mesmo artista que, vivendo um mês numa caverna na companhia de um piano de cauda, ​​atraiu a atenção da mídia e de um mar de jovens, tornando-se um verdadeiro ícone de uma “ermida artística”. Uma personalidade obstinada e corajosa, aquela evocada pela linguagem cinematográfica também no Instituto Cultural Italiano de Amsterdã, onde a trilha sonora extemporânea e apaixonante de “Frei Sun” devolveu não só a história de um santo, mas o eco de uma sensibilidade compartilhada que continua a falar mesmo sem palavras. Por trás das imagens do Pobre de Assis que renuncia a todos os bens materiais após encontrar um leproso, emerge um ideal de pureza feito de essencialidade, pobreza, relação com a natureza, ascetismo, silêncio e contemplação.

São os pilares do franciscanismo que ainda hoje atraem uma cultura em busca de um misticismo autêntico, mas também um imaginário profundamente enraizado no Sul. Aqui, dois séculos depois do frade da Úmbria, a sua revolução silenciosa encontrou continuidade em São Francisco de Paula, fundador da Ordem dos Mínimos: uma comunidade ainda mais austera que a dos franciscanos, marcada por uma espiritualidade eremítica e mística, ligada ao legado do monaquismo mediterrâneo do qual a Calábria foi o berço.

É neste espaço – entre história, mitificação, fé, devoção popular e representação artística – que se enquadra a leitura musical de Mariani. O carácter excepcional das suas actuações, baseadas na improvisação e na inspiração extemporânea, reside precisamente no seu carácter irrepetível. E neste sentido, o seu evocativo percurso pessoal reforça a dimensão simbólica do projecto: em 2011, ao transformar uma gruta de montanha isolada num local de meditação e escuta, deu vida a um festival de “impacto zero” que mais tarde se tornou um evento internacional anual.

Também atento às questões sociais, assinou projetos como “Francesco Povero” interpretado pelo coro da Comunidade de San Patrignano, e “Fragmentos de vida, canções e liberdade” com a Ópera prisão, ambos trazidos ao Piccolo Teatro de Milão.

Sugestão, emoção e nostalgia pelo sagrado perpassaram sua atuação como um arrepio intenso em Amsterdã, no Instituto Cultural Italiano da Embaixada da Itália na Holanda, dirigido por Veronica Manson. Completamente imersa no poder evocativo do filme, Mariani criou a trilha sonora de “Frate Sole” ao vivo, expressando seu estilo eclético e teatral, em que o piano, integrado a instrumentos inusitados, se transforma em orquestra. Isto enquanto as imagens cinematográficas, inspiradas na iconografia medieval e renascentista, transmitiam a profundidade e a humanidade de Francisco.

Esse envolvente diálogo entre piano e imagens “nasceu no final dos anos oitenta”, diz Mariani. “Eu era estudante do conservatório quando o festival de cinema de Pesaro me chamou no último momento para substituir um pianista. Dei por mim a tocar pela primeira vez em imagens que passavam à minha frente, sem qualquer preparação real.

O seu método nasceu dessa imersão forçada?

“Wagner veio em meu auxílio, com seus leitmotivs: associar uma temática musical aos personagens, fazê-los conversar entre si. Essa foi a minha verdadeira escola, entre 1989 e início dos anos noventa. Depois continuei a estudar, a colecionar filmes mudos: hoje tenho um arquivo enorme, quase um filme para cada época da vida”.

Sua música traz a espiritualidade franciscana para o presente. Quanto esta sensibilidade ainda fala ao Sul, entre a Sicília e a Calábria, onde a devoção popular está viva?

“Muito”, responde Mariani. “São Francisco foi, em certo sentido, o primeiro ecologista: compreendeu que a natureza não é algo a ser pisoteado, mas uma realidade viva, uma criatura. Como o homem, como os animais. Tudo participa da mesma dimensão espiritual”.

E acrescenta: “Vejo um paralelo entre a criatividade humana e a divina. A nossa é limitada, imperfeita, mas tende para algo superior. Até na música: o que faço nestes casos não está escrito, não está fixo.

Felipe Costa