Não sou verde e amarela. Sou preta!

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Não sou verde e amarela. Sou preta!

É impossível se calar diante da repetição da história. No dia 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra, dia após o assassinato de um homem preto por dois homens brancos em Porto Alegre, João Alberto Silveira Freitas, assistimos ao negacionismo do racismo no Brasil. Jair Bolsonaro, o presidente; o general Hamilton  Mourão, vice; e o presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo, afirmaram que não há racismo no Brasil.

Lembro que em 1975, (há 45 anos) o ministro das Relações Exteriores, Mario Gibson Barbosa, declarava não serem necessárias medidas para “assegurar a igualdade de raças no Brasil”, pois não havia discriminação racialNaquele ano  o país estava  sob o regime de ditadura militar. O Brasil vivia sob o imaginário oficial da “democracia racial” e manifestações contra o preconceito eram listadas como perigosas na Lei de Segurança Nacional, assim passíveis de investigação, captura, inquérito, prisão e demais medidas repressoras.

As afirmações das autoridades, nos permitem várias conjecturas. Suponhamos: se alguém disser que há hipopótamos andando na avenida Rio Branco, ou na avenida Paulista, ou na Savassi, ou na 5ª Avenida, diremos que é uma ilusão, pois nem existem hipopótamos no Brasil ou nos Estados Unidos. Então não há razão para nos preocuparmos.  Assim é na visão de Bolsonaro, Mourão e Camargo. Se não existe racismo no Brasil, não há o que combater. Bolsonaro afirmou em púlpito internacional (durante a reunião da cúpula do G-20) que as reivindicações de equidade de tratamento e oportunidades para os pretos são “tentativas de importar para o nosso território tensões alheias à nossa História”. Essa é uma questão de ignorância ou de querer se mostrar ignorante em relação à história do Brasil?

O presidente ignora que desde o século XVI, os escravizados lutaram pela liberdade individual e coletiva dos africanos. Ignora os quilombos rurais e urbanos (os zungús cariocas). Ignora os levantes dos malês na Bahia, assim como as revoltas nas lavouras de café do sul fluminense. É ignorante quanto aos líderes nas lutas pela libertação no passado remoto e no passado recente, como os redutos ditos culturais (no samba e na black music) para fugir à perseguição policial. Ignora os números da violência contra jovens pretos; empregos para pretos; diferença salarial entre pretos e brancos.

O negacionismo desses governantes é tão obstinado, os olhos deles estão ofuscados de tal maneira, que o senhor que preside esta república afirmou não enxergar pessoa preta ou branca; para ele o brasileiro é verde e amarelo. NÃO! Por favor, NÃO! Porque enxergar os brasileiros pretos em verde amarelo é a imposição de uma identidade fictícia, pois para que um grupo, uma nação se conjugue em torno de uma identidade, nos ensinou o sociólogo britânico-jamaicano Stuart Hall, são necessários três fatores: “o princípio espiritual da unidade de uma nação: as memórias do passado; o desejo por viver em conjunto; a perpetuação da herança”. Há que se perguntar, então: que memórias do passado seriam conjugadas na unidade nacional brasileira? As do subjugo dos escravizados ou a “benevolência do “senhor”? A convivência conjunta harmônica e tácita em que os pretos “reconhecessem o seu lugar”?  E qual herança transmitida a pretos e brancos mereceria ser perpetuada?

Artigo reproduzido do https://solidarionoticias.com

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