Trilateral em Abu Dhabi: o Kremlin congela o otimismo de Zelensky e pede a retirada do Donbass

Acima de Steve Witkoff e Jared Kushner, abaixo de Kyrylo Budanov e Kirill Dmitriev

A abertura de conversações trilaterais em Abu Dhabi entre Rússia, Estados Unidos e Ucrânia transforma-se imediatamente num duelo diplomático complexo. Apesar do clima de expectativa pelo início das negociações nos Emirados Árabes Unidos o porta-voz do Kremlin Dmitri Peskovcongelou as esperanças de uma resolução rápida ao reiterar que a condição fundamental para o lado russo continua a ser a retirada total das forças armadas ucranianas da Donbass. Uma posição clara que surge no momento em que as delegações começam a discutir uma via dupla, militar e económica, para tentar encontrar uma saída para o conflito.

O “passo em frente” de Zelensky e o cerne da conversa com Trump

As declarações de Moscovo surgem poucas horas depois dos sinais de abertura dados por Volodimir Zelensky. O líder ucraniano, recém-saído de um intenso confronto com o presidente dos EUA Donald Trump em Davos, descreveu o início da cimeira de Abu Dhabi como um “passo necessário para o fim da guerra”. Numa mensagem de voz enviada aos meios de comunicação internacionais, Zelensky sublinhou a importância de não ficar parado, definindo a questão do Donbass como o ponto focal da discussão trilateral e esperando uma discussão construtiva sobre as diferentes visões das partes envolvidas.

A estrutura das negociações e das delegações no terreno

A rigidez da posição russa é também confirmada pela composição da delegação enviada a Abu Dhabi. Peskov anunciou, de facto, que o grupo de trabalho responsável pela segurança é composto exclusivamente por altos representantes do Ministério da Defesaum sinal de que Moscovo pretende negociar os termos do cessar-fogo numa base puramente militar. Ao mesmo tempo, um segundo grupo liderado pelo enviado Kirill Dmitriev ele lidará com dossiês econômicos, fazendo interface com seu homólogo dos EUA Steve Witkoff. Esta divisão das mesas de negociação sugere uma negociação que, embora complexa, visa abordar todos os aspectos da futura estabilidade regional.

Perspectivas e incertezas da cúpula nos Emirados

As negociações, que continuarão hoje e potencialmente também amanhã, continuam pendentes do difícil equilíbrio entre os pedidos de Moscovo e o desejo de Kiev de não ceder territórios estratégicos. Se por um lado Zelensky vê no diálogo uma oportunidade para quebrar o impasse da guerra, por outro lado a linha de Peskov confirma que para a Federação Russa não pode haver um acordo sem uma modificação substancial das estruturas no terreno em Donbass. A cimeira de Abu Dhabi confirma-se assim como um teste crucial para a diplomacia internacional, suspensa entre a esperança de progressos concretos e a intransigência das apostas colocadas pelo Kremlin.

Felipe Costa