Entre o ciclone Harry e o “vento de San Francesco”: a história de um dia de pesadelo no Mar Tirreno de Cosenza. Trens parados, atrasos de até 160 minutos

O ciclone Harry divide a Itália em duas e mais uma vez o Sul paga o preço mais alto. A Calábria Tirrena da Cosentino transformou-se ontem num funil de dificuldades e isolamento. Como é habitual, a linha ferroviária Battipaglia-Reggio Calabria, eixo estratégico para a mobilidade do Sul, que permanece frágil e vulnerável à força da natureza, acaba sob acusação. Não só devido à erosão costeira e marítima, mas desta vez também devido às rajadas de vento.

A suspensão entre Capo Bonifati e Cetraro

A circulação ferroviária esteve suspensa durante várias horas devido aos destroços – varridos pelas chicotadas do ciclone mediterrânico – que acabaram nas vias do troço entre Capo Bonifati e Cetraro. Mas também mais a sul, em San Lucido, onde, no entanto, a situação era menos crítica.

O tráfego foi assim interrompido às 6h15, paralisando efetivamente todo o corredor do Tirreno. Só a partir das 13h o trânsito foi retomado, após uma longa fase de lentidão e limitações que colocaram à prova viajantes e passageiros.

Atrasos e cancelamentos

O pedágio para os usuários foi muito pesado: atrasos de até 160 minutos, cancelamentos de cadeias e trens obrigados a parar em estações intermediárias antes de chegar ao destino final. Os trens de alta velocidade, intermunicipais, intermunicipais noturnos e regionais passaram por grandes reprogramações.

Vários comboios que iam de Roma para Reggio Calabria pararam nas fronteiras da região, enquanto os que partiam do Sul permaneceram bloqueados em Paola ou Lamezia. Estações que se transformaram em terminais forçados. Alguns reescalonamentos foram então ignorados devido ao agravamento das condições também na província de Messina, com repercussões em todo o sistema ferroviário entre a Calábria e a Sicília.

O “vento de São Francisco”

Mas não é apenas o ciclone Harry. No Mar Tirreno de Cosenza, o conhecido fenómeno das rajadas de vento que descem das montanhas e se canalizam violentamente ao longo da costa é denominado “vento de São Francisco”, segundo a tradição popular. Um vento que também tinha sido estudado cientificamente pelo jovem Walter Ventura, falecido prematuramente em 1989 num acidente de viação.

As rajadas de ontem atingiram 100 quilômetros por hora, atingindo a costa por mais de 36 horas consecutivas.

Danos e intervenções no território

Os bombeiros estiveram assim ocupados incansavelmente, com dezenas de intervenções em todo o território para garantir assistência e segurança à população. Em muitos municípios, o vento provocou o arrancamento de árvores, a queda de portões de correr que acabaram na rua, o desabamento de andaimes – como no Viale dei Giardini, no centro de Paola – e danos em edifícios públicos, incluindo o complexo escolar Pizzini-Pisani.

Vidros quebrados, molduras arrancadas, antenas arrancadas de telhados e objetos jogados para todos os lados pela fúria das rajadas. A situação no porto de Cetraro também é crítica (além disso, como salienta Clelia Rovale, na Praça de São Marcos, um pinheiro marítimo centenário foi completamente arrancado pelo vento, enquanto um segundo exemplar parece perigosamente instável, dobrado para um lado), enquanto em Paola houve danos numa instalação de animais na zona do mercado: o telhado descoberto permitiu a fuga de vários cachorrinhos, recuperados apenas após uma longa e complexa busca.

A fragilidade da infraestrutura

Mas para além da emergência, permanece a fragilidade crónica das infra-estruturas ferroviárias do Sul, incapazes de resistir ao impacto de acontecimentos meteorológicos que já não podem ser considerados excepcionais. E cada suspensão torna-se isolamento para a Calábria.

As linhas: reaberturas e trechos ainda fechados

E hoje, «as linhas Lamezia Terme Centrale-Catanzaro Lido e via Tropea reabrirão gradualmente – lemos numa nota do FS –, enquanto a Ionica, de Melito a Crotone, permanecerá fechada para permitir que os técnicos da RFI realizem trabalhos de restauração da infraestrutura danificada».

Felipe Costa