Com «Algo lá fora. A New Black Horror anthology” (Sellerio, traduzido por Luca Briasco), Jordan Peele e John Joseph Adams trazem à Itália um projeto que dá continuidade à pesquisa política do diretor de “Get Out” e “Nope”, usando o gênero como uma lente capaz de revelar o que a sociedade prefere ignorar.
«Vejo o terror como uma catarse através do entretenimento – escreve Peele – uma forma de processar medos e feridas profundas». Daqui nasceu uma antologia que reúne dezanove autores afro-americanos, de NK Jemisin a Tananarive Due, para explorar o horror como forma de revelação política.
Peele abre evocando as “oubliettes”, prisões medievais tão estreitas como caixões verticais, de onde apenas se vislumbrava um vislumbre do céu. Lugares onde os presos sentiam a vida dos outros passando, enquanto eram deliberadamente esquecidos. É a metáfora que define o volume: histórias como salas escuras em que o que a sociedade tende a remover volta a exigir atenção. O texto de estreia, «Eyes That Starre» de NK Jemisin, nasceu de um episódio real a partir do qual ganha corpo a história de Carl Billings, um policial que se sente perseguido pelos faróis de um carro. Uma imagem perturbadora que evoca tensões raciais, o “Não consigo respirar” de George Floyd, os protestos do movimento Black Lives Matter. “O olhar negro é a perspectiva de pessoas que são constantemente vigiadas, de pessoas cuja visão é literalmente mortal se olharem para alguém da maneira errada. Muitos de nós morremos por causa disso”, revelou o autor em entrevista.
A antologia galardoada com dois prestigiados prémios – Bram Stoker Award e British Fantasy Award – compõe um bestiário de fantasmas contemporâneos: zombies modernos, casas assombradas por espíritos africanos e filhas enlutadas como no valioso “The Dark House” de Nnedi Okorafor. Uma história após a outra, o sobrenatural é um lembrete cultural: cada texto investiga o trauma racial e sua metamorfose no presente. Sellerio propõe uma obra moderna que reescreve o gênero a partir de uma perspectiva marginalizada: como nos lembra Peele, para se libertar verdadeiramente da escuridão é preciso ter a força necessária para saber olhar para ela.