Vara 2026: O que mais podemos escrever sobre você? Apenas a história de uma experiência

Tudo foi dito e escrito sobre ela. O que mais adicionar? É uma procissão, como há muitas na Itália e nos países de fé católica. Uma celebração popular? Sim, mas também o são os eventos do tipo feira comercial, Vinitaly ou Woodstock. E então, quais são esses aspectos profanos, que têm pouco ou nada de religioso? Estamos em 2026 e ainda falamos de tradição, de identidade, da vocação mariana de uma cidade…
Então, o que ainda pode ser dito e escrito sobre ela? Apenas a história de uma experiência. Isso de cada um de nós. Você pode compartilhá-lo com os outros, mas é absolutamente seu, só você o vivencia naquele momento, mesmo que então perceba que faz parte de uma multidão, de mãos que agarram uma corda e se abraçam, de pés que sangram, de olhos brilhantes, de corações que batem em uníssono.
E então, sim, é verdade, é uma procissão. Mas você não experimenta isso como quando vai como turista para outra cidade e vê a corrida de Ceri ou a corrida de touros ou um cavalo Palio. Não, você vive isso de dentro, primeiro dentro de você mesmo, depois naquele recinto formado por remadores e atiradores, e gradualmente numa dimensão cada vez mais ampla, até envolver toda a cidade, e mesmo além, um mundo inteiro que gira em torno deste símbolo e que pára quando a Vara pára. É como experimentar um estado místico. E os místicos não têm palavras para descrever a sua experiência. Eles apenas vivem isso. Você percebe a profunda transformação deles só de olhar nos olhos deles, mas com discursos e raciocínios eles jamais te convenceriam.

Não é uma procissão como as outras. Quem mora em Palermo fala da “sua” Santa Rosália, em Catania fala de Sant’Agata, mas a Vara de Messina é a Vara de Messina, não tem igual, não tem termos de comparação, não pode ser confundida nem rotulada, escapa aos esquemas exclusivamente racionais, à mente que discrimina e julga.
Você mergulha nesse fluxo. Você é uma onda no oceano. E você nada, como se estivesse atravessando o mar, mas sem ter nenhum objetivo, sem querer chegar a uma margem. Você apenas surfa, não há mais nada necessário. E você sente que ao seu lado, aos milhares, eles estão fazendo a mesma jornada, única para cada um, mas que o liga inextricavelmente aos outros.

Não é apenas uma celebração popular. A palavra celebração deriva do latim “Festus”, ou seja, festivo, solene. E é claro que a Assunção é uma solenidade. Mas a Vara não pode ser explicada apenas como uma festa popular. Tem algo de dramático, no sentido autêntico do termo (o grego, drama, ou seja, ação), como um espetáculo grandioso onde, porém, teatro e vida são uma coisa, um caminho. Você é o ator principal, como se não houvesse mais ninguém no palco. Mas você está porque todos os outros também vivenciam esse evento como você, como protagonistas. Os que puxam, os que guiam, os que se agarram, os que gritam, os que rezam, os que sorriem, os que se deixam levar pela corrente, os que lançam dúvidas e ceticismo e se envolvem. Uma encenação espetacular onde é preciso ser necessariamente ator, não se pode ser apenas espectador.
Estamos em 2026 e ainda falamos de identidade e tradição, como se fossem valores reacionários ou uma desculpa para não enfrentarmos o presente de uma cidade, e de um povo, com mil contradições? Não há resposta para esta pergunta. Porque é a pergunta que não faz sentido. Se estamos aqui é porque alguém nos precedeu, porque séculos e séculos de mulheres e homens que viveram nas margens do Estreito nos forjaram e moldaram, como numa oficina de ferreiro e no laboratório de um ceramista. O problema não é reviver momentos de um passado que nunca mais volta, mas conseguir fazer coincidir a História e o Futuro, no momento presente.
Aqui está mais um artigo sobre Vara. Aceite o que vale a pena. Não acrescenta nada ao que já sabemos. Mas é a história de uma experiência. Meu, seu, nosso.

Felipe Costa